• Sérgio Callado Fadul Jr

Padre Mottinha

O trecho a seguir foi capturado de um blog em homenagem ao Padre Mottinha, www.padremottinha.blogspot.com, na ocasião de seus 50 anos de sacerdócio:

"Tudo começou no dia 24 de novembro de 1933 (Ano Santo). Neste dia nascia, no Rio de Janeiro, Manoel Luiz Barros da Motta, o 13º filho do casal Manoel Leonardo da Motta e Júlia Barros da Motta, mineiros, muito católicos e que formaram uma família numerosa: no total foram 15 filhos, dos quais, apenas dez sobreviveram. Hoje, apenas três irmãs fazem parte de seu convívio: Terezinha, Glória e Cecília. Mas, este momento é de alegria!


Na época da sua infância, o senhor morava na Vila das Margaridas, no bairro do Engenho Novo. Sua família era pobre e com tantos irmãos as dificuldades eram grandes, o que mostra que sua mãe, dona Júlia, sempre foi uma vencedora. Com o falecimento de seu pai, as coisas se agravaram, o que fez com que ela fosse pedir, aos Padres Salesianos, uma bolsa de estudos para fazer o curso primário no Colégio São Francisco de Sales, no bairro do Riachuelo, aqui no Rio.


Ao terminar o curso primário, demonstrando vocação para o sacerdócio e dizendo que queria ser padre, o senhor foi, com 11 anos de idade, encaminhado para o seminário São José.


Para ser admitido no seminário, três etapas precisavam ser vendidas: a primeira, fazer uma prova, na qual saiu-se muito bem e foi aprovado; a segunda, uma entrevista: o senhor se lembra do detalhe?

Durante a entrevista do candidato da frente, o padre perguntou por que ele queria ser padre e, então, respondeu: "Quero ser padre para salvar almas!". Como o senhor, naquela época já era esperto, conseguiu enxergar o que o padre escreveu: não tem vocação para padre.

Quando chegou a sua vez, o padre fez a mesma pergunta e o senhor respondeu: "Quero ser padre para arrumar a procissão: homens para um lado, mulheres para o outro, Filhas de Maria para um lado, Vicentinos para o outro..." Com isso, o padre escreveu: este tem vocação para padre.

Bem, e a terceira, o senhor jamais esqueceu: O enxoval. Difícil tarefa em razão das grandes dificuldades financeiras enfrentadas, porém o senhor contou com a ajuda de algumas pessoas e , principalmente, das irmãs mais velhas, que, à época, já trabalhavam. Com isso, finalmente em março de 1945, o senhor pode ingressar no Seminário São José.


Bem, aqui vamos fazer alguns parênteses, para relatar algumas curiosidades que antecederam sua entrada no seminário e outras que aconteceram no decorrer dos estudos.


Todos que o conheciam sabiam que o senhor era "levado", muito alegre, gostava muito de carnaval, gostava de namorar... tanto que as pessoas ao seu redor, ao verem a preparação do enxoval diziam: "É um desperdício, ele nunca vai conseguir ser padre". Tanto era verdade que alguns moradores da vila em que o senhor morava chegaram até a fazer apostas se conseguia ou não ser padre.


Outro detalhe é que antes de ir para o seminário o senhor pulou e brincou carnaval até 4ª feira de cinzas, no bairro do Engenho Novo indo de bonde em bonde, pois naquela época o carnaval dos bairros era bem diferente dos de hoje.


Outro detalhe, ainda, é que antes de ir para o seminário o senhor chamou a namoradinha, despediu-se dela e foi logo dizendo: vou ser padre!


Durante o tempo de seminário, muitos fatos aconteceram, mas vamos somente relembrar alguns.


Um deles é que os seminaristas gostavam de dar apelidos uns aos outros. O senhor lembra de como era chamado: papagaio, não por que fosse levado ou falasse muito, mas sim pelo formato do nariz.


Outro fato marcante foi que um belo dia, talvez porque o senhor devia estar fazendo bagunça, um determinado professor o colocou de castigo, voltado para a parede, como era costume naquela época. E aí? O senhor se recorda qual foi a sua imediata reação? Muito chateado com o castigo, pegou uma tesoura, começou a bater na parede, e sabe o que aconteceu? Furou um cano, inundando toda a sala. O que aconteceu depois, não consegui averiguar, mas fico imaginando aquele jato d’água saindo da parede e a bagunça que os seus colegas fizeram – o castigo deve ter sido ainda maior, não é mesmo?


Durante as poucas folgas que o senhor tinha para visitar a família, outros fatos aconteceram. O senhor lembra o que gostava de fazer quando chegava em casa? O senhor aproveitava a ausência de suas irmãs, corria para o quarto delas, abria o armário e amarrava e dava nó nas roupas delas, só pelo prazer de vê-las desamarrar.


Igualmente como hoje, o senhor cuidava da sua aparência e imitando o Wilson Fittipaldi, o senhor cultivou, por algum tempo, uma costeleta igual à dele.


Algo muito curioso aconteceu com relação à batina que usava: uma vez estando em casa o senhor tinha que ir para a missa e, detalhe, já estava atrasado! E qual foi a grande surpresa: ao pegar a batina para vestir, o senhor descobriu que seus sobrinhos tinham amarrado todos os botões com barbante. Quem se lembra das batinas, sabe que a quantidade de botões era muito grande! imaginem o trabalho que deu... e o senhor com pressa.


Outra dos seus sobrinhos: como seminarista, bem como ainda hoje, o senhor deveria fazer as orações diariamente, mas quando estava na casa dos sobrinhos, eles não permitiam a necessária concentração e ficavam lhe perturbando. Lembra o que o senhor fazia? Corria atrás deles e com uma vassoura e espetando as suas pernas. Todos se divertiam muito!


Bem, o tempo passou e depois de vários acontecimentos, de muitas lutas, veio a tão esperada vitória: Tornar-se sacerdote. Era dia 29 de junho de 1958, ano do 1º centenário das aparições de Nossa Senhora de Lourdes. Esta, a razão que o levou a escolher a matriz de Nossa Senhora de Lourdes, em Vila Isabel, para a celebração de sua ordenação sacerdotal, onde assumiu o nome de Padre Mottinha, já que, seu irmão, também sacerdote, era chamado de Padre Motta.


Antes ninguém acreditava, mas agora, todos viam que aquele pequeno menino de 11 anos, agora se tornara um sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo.


Após sua ordenação exerceu os seus primeiros 5 anos de sacerdócio, lá mesmo, no seminário São José. Uma vez, estando como chefe de disciplina, imagine o senhor que era tão "levado" ser chefe de disciplina, passou no corredor e encontrou um bispo que lhe perguntou: Mottinha! Você conseguiu chegar a padre? Lembra o que o senhor, olhando bem firme pra ele, respondeu? Ué, o senhor não conseguiu chegar a bispo?


Outro fato deste período é que o senhor gostava de lambreta e tinha uma, que ficava guardada na casa de sua irmã Rita, após o senhor dar umas voltinhas. No entanto, o que o senhor durante muito tempo não sabia e nem desconfiava era que seus sobrinhos pegavam sua lambreta e, também, davam umas voltinhas, gastando a gasolina.


Já que o senhor gostava tanto de lambreta, queria fazer uma pergunta que todos nós gostaríamos de saber: naquele tempo o senhor era chamado de Padre Mottinha ou de Padre Lambretinha?


Padre Mottinha, vamos ver, agora, um pouco de sua bonita trajetória: São 50 anos de sacerdócio, 50 anos de total entrega e dedicação ao povo de Deus, ao imenso rebanho do Senhor, pelas diversas igrejas deste Rio de Janeiro.


Depois que saiu do Seminário São José, o senhor foi vigário paroquial da Matriz de N. Sa. da Conceição, no Engenho Novo. Em seguida foi para a Matriz de São Cosme e São Damião, no Andaraí. Foi Capelão do Leprosário Frei Antônio, em São Cristóvão, durante 3 anos. Trabalhou como Pároco da Matriz de Santa Teresa D'Avila, em Coelho Neto. Depois, durante 5 anos, Pároco da Matriz de N. Sa. do Rosário, em Del Castilho. A seguir, transferido para a Paróquia de São Benedito, em Pilares, onde ficou durante 5 anos. Depois, assumiu a Paróquia de São Brás, em Madureira, onde permaneceu, por apenas 6 meses, devido às enfermidades que o acometeram. Finalmente, para a Matriz de N. Sa. da Glória, no Largo do Machado, onde está até hoje.


Padre Mottinha, como sabemos o mundo foi dividido em duas eras distintas: AC e DC – antes de Cristo e depois de Cristo. Como o senhor sempre fala, a sua vida sacerdotal pode ser, também, dividida em duas eras: AEO e DEO – antes da experiência de oração e depois da experiência de oração: Uma grande reviravolta. Algo como a conversão de Paulo, só que ele perseguia os cristãos e o senhor era contrário à renovação carismática.


Bem, vamos ver como isso aconteceu. Na década de 80, quando saiu da paróquia de São Brás, em Madureira, o senhor foi descansar e restabelecer a saúde na Fazenda do Seminário, em Itaipava. Lá encontrou o Padre Joaquim que o convidou a retornar para a Paróquia de Nossa Senhora da Glória e que lhe ofereceu o sábado como seu dia livre.


Como há muito tempo o senhor vinha sendo convidado por membros da renovação carismática para fazer o Seminário de Vida no Espírito Santo, mas não tinha tempo, o senhor viu nesta oportunidade o momento de fazer esta experiência. Há, então, beleza, era o momento de unir o útil ao agradável. Nada disso! o senhor queria ir para criticar, verificar o que entendia estar errado, colocar a renovação contra a parede, pois o senhor dizia para Jesus: eu vou salvar a tua igreja desse bando de malucos. E tem mais, o senhor foi na condição de que não fosse identificado como padre e somente como Manoel, pois assim acreditava ser mais fácil para fazer suas almejadas observações.


Durante o seminário, que começou na sexta-feira à noite, o Padre Mottinha, fez todas as anotações possíveis. Mas, assim como Paulo, ali, também aconteceu uma queda do cavalo! No domingo, o Padre Javier que era o dirigente espiritual do encontro, de última hora, não pode presidir a celebração da missa de encerramento, então os coordenadores convocaram o Padre Mottinha, explicando-lhe o ocorrido. Sem outra alternativa e em obediência ao chamado sacerdotal, ele se apresentou, sem saber contudo que o melhor estava por vir, pois o Espírito Santo o presenteou com ricas bênçãos: Numa rasteira, como ele mesmo diz, converteu-o para a renovação carismática. Sabem como se deu isso?


Ao ser perguntado, pela equipe de liturgia, quando queria que o canto de entrada fosse iniciado, o Padre Mottinha respondeu que iniciassem o canto e que ele, em seguida, entraria. E assim se deu. Durante o canto Anuncia-me, o mesmo canto que oferecemos ao Senhor no início desta celebração, o Padre Mottinha caiu em prantos... cantou... levantou os braços... e louvou imensamente ao nosso Deus, totalmente convertido. Alguns pensavam que era carismático há muito tempo, outros espantados falavam: não é aquele que estava fazendo o seminário conosco?


Pois bem, querido Padre Mottinha, de lá para cá, já se passaram muito mais de 20 anos. É bem verdade que o senhor não está mais organizando procissão, mas sim, algo muito mais importante: está ajudando a conduzir o grande rebanho de Nosso Senhor Jesus Cristo neste mundo, de modo que possa alcançar a plenitude da glória, como o senhor mesmo nos diz, reservando um vôo sem escalas, direto para o céu.


Finalmente, basta olharmos para esta repleta casa de Deus, para vermos os muitos frutos resultantes de sua total e incondicional entrega, ao longo de 50 anos de Vida Sacerdotal. São todos familiares e amigos seus! São pessoas que convivem com o senhor. São pessoas que participam ou já participaram diretamente da sua vida. São pessoas que já receberam alguma cura de Nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de suas orações. São pessoas que vêm sendo abençoadas por suas mãos. "


Eu tive a oportunidade de conhecer o Padre Motinha em 1982, quando criança ainda, logo após minha primeira comunhão. Um pouco diferente da história contada, o padre Mottinha já era um dos padres da Paróquia Matriz de Nossa Senhora da Glória. Ele era o encanto das crianças e tive a oportunidade de ser por um período seu coroinha.


Lembro perfeitamente ele chamando as crianças com nomes engraçados, perguntando sobre o evangelho, brincando e perguntando qual era o time da criança... ele era flamenguista e sempre que era um flamenguista também era o elogio, mas se fosse outro time, a brincadeira já estava pronta e as crinças se divertiam. E tinha mais, quem respondesse tudo direitinho, ganhava um ticket com direito a um lanche na Itajaí, uma lanchonete que ficava próxima da Igreja, na Rua das Laranjeiras.


Também recordo de uma coisa... Quando fui para o grupo jovem, aos 14 anos, lembro de ter ido a uma missa dele, mas não recordo a idade, talvez 15 ou 16 anos. Ele falou de uma experiência que teve no leprosário, que tremia para dar a benção e que foi uma superação em nome da graça. Pouco depois, eu recordo que ele estava engajado com o movimento da Renovação Carismática. Talvez estes tempos se encaixem e acho que o Padre Mottinha realmente se afastou por um tempo da nossa Paróquia, mas não sei em que período... Sabíamos que às vezes haviam algumas discussões que não passavam despercebidas entre ele e o Padre Joaquim, mas os dois se respeitavam muito e acho que foi em um segundo momento este chamado de volta para a casa.


No blog vocês podem ver também uma homenagem que ele recebeu em outra cidade. Além de algumas outras fotos e momentos dele com seus amigos.

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