• Sérgio Fadul - Seguindo os passos da História

Santo Olavo II



Ainda hoje é comum ouvir que todos os vikings haviam sido pagãos e que somente tiveram contato com o cristianismo fora da Escandinávia. Na verdade, a história não foi bem assim. Relatos já apontam a visita de missionários cristãos na Dinamarca, ainda no século IX. Um desses missionários foi o monge beneditino Ansgário de Hamburgo (801-865), que posteriormente visitou também a Suécia. No caso, Ansgário que foi canonizado com o nome de São Oscar, foi um dos principais missionários a difundir o cristianismo em terras nórdicas, inclusive promovendo a construção de igrejas e capelas. Logo, os vikings ainda no século IX já haviam começado a aderir a fé cristã, não tendo sido algo feito no exterior ou séculos depois. O rei Haraldo Klak da Dinamarca é conhecido como o primeiro rei viking a ter se convertido ao cristianismo, ainda no começo do século IX. Inclusive teria sido o responsável por levar o monge Ansgário para a Dinamarca, durante o seu retorno do seu exílio na França. (BRAGANÇA JR; QUINTANA, 2010, p. 43). No entanto, embora algumas comunidades houvessem se convertido a fé de Cristo, e até mesmo alguns monarcas tenham tentado entre os séculos IX e X difundir o cristianismo em seus reinos, o cristianismo não se espalhou rapidamente pelos reinos nórdicos, ele somente começou a se firmar no século XI em diante. No caso de São Olavo ele como vários outros santos, somente foi canonizado após a morte, quando seus milagres ou martírio foram reconhecidos pela Igreja Católica Apostólica Romana. Algo que comentarei mais especificamente adiante, mas antes de chegar a canonização em si, precisamos conhecer quem foi esse homem. Neste caso, Olavo II Haraldsson foi um príncipe viking de origem norueguesa que viajou por parte da Europa ainda na sua juventude, antes de retornar para sua terra natal, a fim de disputar o trono norueguês. Porém, quando ele retornou, Olavo já havia se convertido ao cristianismo, então durante seu reinado, uma de suas missões foi tornar a Noruega um reino cristão. Sendo assim, veremos algumas fontes para se conhecer a vida desse rei viking que se tornou santo, e comentarei a respeito de alguns pontos importantes da sua vida, para concluir com sua canonização.


As fontes sobre Olavo II:

Um dos problemas para se estudar a história viking, período que ocorreu entre o final do século VIII até meados do século XI, que cronologicamente ficou conhecido como Era Viking ou Idade Viking, diz respeito que as fontes escritas são escassas. Muito do material escrito da época pouco informa sobre a história, e algumas informações mais detalhadas advêm de estrangeiros, os quais em alguns casos não foram imparciais em suas descrições e comentários, e até mesmo repetindo e confirmando estereótipos. Por outro lado, as principais fontes escritas de origem nórdica, datam dos séculos XII ao XIV, ou seja, narrativas de cem, duzentos ou trezentos anos após os acontecimentos que elas narram. Logo devido a essa distância, as histórias sobre Olavo II devem ser lidas com cautela, pois além de conter imprecisões históricas, também estão passíveis de terem sido romanceadas. Olavo II teve a sorte de que algumas das narrativas que abordam seus feitos, datam de períodos não tão distantes da sua vida. No caso se destaca a produção literária do poeta Sighvart Tórdason (?-1043) o qual teria sido poeta na corte do rei Olavo. Tórdason é lembrado por ter composto um poema intitulado Nesjavísur, o qual celebra a vitória do rei Olavo na Batalha de Nesjar (1016), e o poema Víkingavísur que narra algumas das façanhas do monarca. Entretanto esse poemas são breves e pouco nos informam sobre outros momentos da vida desse rei. Não obstante, Olavo também é mencionado no Ágrip of Nóregskonungasögum (Sinopse da Saga dos Reis Noruegueses), documento incompleto que traça o nome dos monarcas que governaram a Noruega. Tal documento é datado do século XII e serviu de fonte para o catálogo de reis contido no livro Historia Norwegiae (XIII). O Ágrip também traz poucas informações sobre Olavo. Entretanto, as fontes mais detalhadas sobre Olavo, apresentam um caráter religioso. A primeira delas consiste na Antiga Saga de São Olavo (c. 1200), narrativa de autoria anônima que serviu de base para outras duas versões: uma encontrada no livro Heimskgringla, intitulada Ólafs saga helga (Saga de São Olavo), cuja autoria é atribuída ao poeta islandês Snorri Sturluson (1179-1231), possível autor também da Edda em Prosa e de outras obras. No caso da Heimskgringla, esse livro consiste numa coletânea de sagas de reis (Konungasögur) noruegueses, o que inclui genealogias, dinastias e até mesmo mitos sobre a origem de algumas famílias nobres. A outra versão inspirada pela antiga saga, trata-se da Legendária Saga de São Olavo, narrativa de autoria anônima e datada do século XIII. No caso, a Saga de São Olavo é a narrativa com maior número de informações sobre ele. Outra fonte de caráter religioso sobre Olavo II diz respeito a uma obra latina de caráter hagiográfico, intitulada Passio et miracula beati Olavi (Paixão e Milagre do abençoado Olavo), que consiste numa obra de autoria anônima e datada do século XII, a qual claramente já apresentava um discurso cristão e hagiográfico de enaltecimento desse santo norueguês. A obra é notória por apresentar um Olavo devoto a Cristo e que teria realizado milagres. Sobre ela comentarei mais adiante quando abordar a questão da canonização de Olavo. Alguns acontecimentos relacionados a vida de Olavo II também foram mencionados brevemente na Crônica Anglo-saxãs (XII), mas sem detalhes. Todavia, no Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum (XII) de Adam de Bremen, encontra-se algumas informações sobre Olavo, especialmente sobre o conflito entre ele e o rei Canuto, o Grande. A Historia Norwegiae (XIII) também traz algumas informações escassas sobre o monarca. Além dessas três crônicas, existem outros livros também que citam o monarca, mas de forma breve. Nesse estudo procurei comentar a vida de São Olavo principalmente através da Heimskgringla, daHistoria Norwegiae e do Passio et miracula beati Olavi. Neste sentido, adianto que ambas as obras chegam a ser contraditórias sobre determinados acontecimentos, inclusive sugerem datas diferentes e até o fato que Olavo estaria em dois lugares ao mesmo tempo participando de batalhas. Mas isso não seria um milagre, mas um equivoco das fontes sobre as aventuras desse rei guerreiro. O jovem guerreiro Assim como outros governantes no passado, muitos aspectos sobre a infância e adolescência deles são desconhecidos, pois em geral os biógrafos tendiam a narrar a respeito da fase adulta destes homens. No caso de Olavo isso não foi diferente, embora que sua adolescência foi melhor comentada em algumas situações. Segundo a Saga de São Olavo na Heimskgringla, Olavo Haraldson (Ólaf Haraldson) nasceu em data incerta no ano de 995, sendo filho de Haroldo Grenske e Asta Gudbrandsdatter, tendo nascido em Ringerike como sugerem as fontes sobre sua vida. Era dito que por parte de pai ele descendia de Haroldo Cabelo Belo, o primeiro rei da Noruega unificada. Sobre seu pai pouco se sabe, mas era considerado o jarl (governante) de Vestfold. Embora que as fontes da época diga que Haroldo fosse rei. Provavelmente trata-se de um erro de interpretação, ao considerar que os jarl fossem monarcas. Haroldo Grenske acabou falecendo em data desconhecida e Asta casou-se com Sigurd Syr, jarl de Ringerike. Desse matrimônio Asta gerou Haraldo Hardrada (c. 1015-1066), o qual também se tornou um rei futuramente. Não se sabe como foi a infância de Olavo, porém, a saga informa que no ano de 1007, quando ele contava com seus 12 anos de idade, o jovem príncipe foi enviado por seu padrasto ao mar, lhe dando o comando de uma pequena frota e vários homens. Assim, nessa tenra idade Olavo iniciava sua vida como viking. No caso é preciso sublinhar que a palavra viking era usada também para se referir as atividades navais relacionadas com pilhagem. Algo que encontra respaldo em alguns documentos medievais quando usam a expressão "sair a viking". Sem contar que o termo também em alguns lugares tornou-se sinônimo para se referir a piratas do Norte. No caso, a Saga de São Olavo comenta que desde cedo o príncipe já havia ingressado nos ofícios do mar, da guerra e de um viking, tendo comandado pilhagens na costa sueca, confrontado um chefe chamado Sote, em Sotasker; atiçado a fúria do rei Olavo da Suécia que reuniu um exército para caçá-lo; atracou na ilha de Gotland e ameaçou uma vila, cobrando-lhes um tributo para não serem atacados. Ali ele e seus homens passaram o inverno, e no ano seguinte atacaram e pilharam a região de Eysyssel, atualmente na Estônia. Em seguida ele seguiu para a Finlândia, continuando com suas pilhagens. Nesse ponto a saga não é clara, pois informa a posteriori que Olavo havia retornado para casa. Mas segundo sugere esse relato, ele contava com seus 12-13 anos quando realizou sua incursão de pirataria pelo mar Báltico. Em data incerta, já de volta a Noruega, Olavo se aliou a Thorkall, o Alto, o qual era irmão dojarl Sigvalde. Juntos eles partiram para o sul da Dinamarca, realizando assaltos. Nesse ponto, a saga se refere a Olavo já com o título de rei, mas diz que ele sera chamado de rei, pois era um chefe, e não por ter um reino. Após os ataques na Dinamarca, Olavo seguiu em direção a Frísia (região na atual Alemanha e norte da Holanda), onde participou da sua quinta batalha, como informa a saga. Os conflitos na Inglaterra A saga interrompe a narrativa das expedições e batalhas do jovem Olavo, para comentar a respeito da morte do rei Sueno Barba-bifurcada da Dinamarca (c. 964-1014). Sueno havia em momentos distintos governado também parte da Noruega e da Inglaterra. Em 1014, ano da sua morte, Sueno disputava o controle da Inglaterra contra o rei Etereldo II (c. 968-1016). Na ocasião tropas dinamarquesas confrontavam tropas inglesas no país. Porém, a saga informa que Olavo chegou a Inglaterra no outono de 1010, e naquele período Sueno já estava morto, e o rei Etereldo II em campanha em Flandres (atualmente na Bélgica), retornava para a Inglaterra a fim de expulsar os exércitos dinamarqueses. Olavo e seus homens foram alguns dos chefes vikings que aceitaram trabalhar para o monarca inglês, ajudando-o a expulsar os dinamarqueses. Olavo atuou em Londres e Southwark. Nesse ponto vemos um primeiro equivoco temporal apresentado pela Saga de São Olavo, ao dizer que Sueno Barba-bifurcada faleceu em 1010, quatro anos antes do que realmente de fato ocorreu. Após as vitórias no outono, Olavo continuou a servir o rei inglês pelos meses seguintes, participando de batalhas em Hringmara Heath nas terras de Ulfkel, em Canterbury e em Nyjamoda, onde atacou navios de guerra. Embora estivesse ajudando o rei inglês a retomar seu controle sobre o país, a saga informa que isso não pôs fim aos saques e invasões cometidos por Olavo e seus homens. Além de informar que ele viajou por várias regiões daquele país. A Historia Norwegiae informa esse relato de maneira diferente. Essa crônica de autoria anônima conta que Olavo não teria servido o rei Etereldo II, mas sim o rei Canuto II, o Grande (c. 995-1035) nas campanhas contra Edmundo II Braço de Ferro (990-1016), sucessor de Etereldo II. No caso, o rei Edmundo assumiu o trono em 1016, o que significa que por essa fonte, a presença de Olavo na Inglaterra somente ocorreu mais tardiamente e não no ano de 1010 como ela sugere, ou em 1014, ano da morte de Sueno Barba-bifurcada. De qualquer forma, a crônica prossegue dizendo que Olavo continuou a servir o rei Canuto até a morte do rei inglês que ainda ocorreu em 1016. A expedição misteriosa A cronologia apresentada na Heimskgringla é equivocada em várias datas. Por exemplo, ela aponta que o rei Sueno faleceu em 1010, embora historicamente saiba-se que ele morreu em 1014. Por sua vez, ela diz que o rei Etereldo II morreu em 1012, mas esse somente faleceu em 1016. Devido a esse problema com as datas, dispomos de uma lacuna de quatro anos, na qual não sabemos exatamente onde encaixar determinados acontecimentos os quais teriam sido vivenciados por Olavo. Neste caso, insere-se aqui uma série de batalhas ocorridas em lugares desconhecidos, chamados de Hringsfjord, Grislupollar, Williamsby, Fetlajord, Seljupollar e o no castelo de Gunvaldsborg. Tais localidades são citadas no poema Víkingavísur, e retomado na Heimskgringla e na Historia Norwegiae. A respeito, o historiador Hélio Pires (2017, p. 130-131) comenta que ainda hoje não se sabe ao certo onde essas localidades estariam situadas de fato. Pires comenta que desde o século XIX surgiram hipóteses alegando que tais localidades se encontravam na Galiza e Portugal, pois a Historia Norwegiae diz que Olavo travou tais conflitos na Ibéria. Todavia, Hélio Pires (2017) em seu denso estudo sobre a presença viking em Portugal e Galiza, constatou tais hipóteses com base na análise de fontes medievais de três séculos distintos, não encontrando nada que corrobora-se que Olavo teria se quer viajado para a Península Ibérica. Por outro lado, ele propôs duas hipóteses: uma é que tais lugares sejam fictícios, e o poema não se refere a acontecimentos reais, mas inventados para enaltecer o monarca, pois é preciso lembrar que Sigvart, o autor do Víkingavísur foi um poeta de corte, e em geral tais homens tinham que bajular seus senhores. Outra possibilidade é que os nomes não correspondam a localidades precisas, mas tais expedições possam ter ocorrido na França, pois o poema menciona os rios Poitou e Loire, localidades bastante conhecidas pelos nórdicos desde o século IX. Outra questão a ser comentada, diz respeito que durante a época dessas campanhas no sul, Olavo teria cogitado realizar uma expedição a Jerusalém, já que era um cristão. O problema é que além de não saber quando exatamente tais campanhas ocorreram, onde elas se deram, se é que elas realmente aconteceram, Olavo segundo a saga somente foi convertido ao cristianismo entre 1013-1014, quando estava residindo na Normandia, no noroeste da França. O sonho nobre e a conversão Os relatos sobre a vida de Olavo Haraldson como a Saga de São Olavo e a Historie Norwegiae mencionam que enquanto ele estava em campanhas no sul, ele teve um sonho profético. Ele havia sonhado que seria coroado rei da Noruega. E motivado com aquela esperança deixou a França e seguiu de volta a Noruega. Porém, existe um problema nessa parte da história. Hélio Pires (2017) e Hollander (1999) comentam que as fontes que mencionam esse sonho e o retorno de Olavo, apontam datas diferentes para tal acontecimento. A saga diz que isso teria ocorrido depois da morte do rei Ethereldo II, o qual historicamente faleceu em 1016, porém, a saga sugere que o monarca tenha morrido em 1012, então no ano seguinte Olavo teria viajado para o sul, talvez França ou Península Ibérica. Por sua vez, a Historie Norwegiae comenta que Olavo somente foi para a Inglaterra a partir do reinado de Canuto, o Grande, rei dinamarquês que entrou em guerra contra aos ingleses. Mas isso somente teve início em 1016. Antes disso, Olavo estaria em campanhas pela Dinamarca, França ou Galiza. No entanto, ele foi coroado em 1015. O que implica em dizer que nessas campanhas ele já era rei da Noruega? Ele já havia se convertido? Nesse ponto, percebe-se como as fontes não nos ajudam a entender a cronologia dos acontecimentos com clareza. Mas antes de deixar a França, Olavo ainda participou de uma batalha em Poitou, então voltou ao mar e parou na Normandia, província oriunda a partir das conquistas do viking Rollo (c. 860-932). Na cidade de Ruão, Olavo ficou hospedado na corte de Ricardo II, o Bom (970-1026), então Duque da Normandia. Segundo a saga, ele permaneceu o inverno por lá. E no tempo que ali esteve se converteu ao cristianismo, mas também recebeu a visita dos filhos do rei Etereldo II da Inglaterra, procurando a ajuda dele para ajudá-los nas guerras em Inglaterra. O retorno para a Noruega Outro episódio questionável e incongruente da história de Olavo Haraldson diz respeito a aliança com os herdeiros de Etereldo II. A Historia Norwegiae diz que essa aliança não existiu, mas foi feita com Canuto, o Grande para se atacar os ingleses. Por sua vez, a Saga de São Olavo narra que o contrário ocorreu: Olavo se uniu aos príncipes ingleses para combater Canuto. Ele teria aceitado servir os nobres ingleses, e assim na primavera zarpou para a Nortúmbria (norte da Inglaterra), onde confrontou as tropas de Canuto, obtendo vitória sobre essas. Porém, Olavo havia acordado com os príncipes que não iria demorar na ilha, pois tinha a missão de se tornar rei de seu país. Concluído o conflito ele zarpou com seus homens para a Noruega. Olavo teria retornado para sua terra natal no final de 1014 ou começo de 1015 como sugerem as datas corrigidas. Ao retornar a Noruega o país ainda vivenciava uma instabilidade no governo. Quando Olavo havia nascido em 995, grande parte do país estava sob domínio de Olavo I Tryggvason que governou por cinco anos. Com a morte do monarca na Batalha de Svoder (1000), a Noruega foi ocupada pelos dinamarqueses, passando a pertencer a Sueno Barba-bifurcada. Que governou por quatorze anos, mas designou dois governantes locais para representá-lo. No caso foram escolhidos dois irmãos, Eric e Sueno Haakonson, senhores de Lade (atual Trondelag), que governaram o país de 1000 a 1015. Para Olavo poder se proclamar rei da Noruega ele teria que confrontar os dois irmãos. Segundo a Saga de São Olavo, Eric Haakonson não se encontrava presente na Noruega, ele estava na Inglaterra, onde possuía terras na Nortúmbria. Em seu lugar estava seu filho Hakon Ericson. No caso, Olavo confrontou Hakon e conseguiu capturá-lo. Hakon era também um jarl e era descrito como um belo homem. Durante a conversa entre os dois, Olavo propôs que pouparia a vida de Hakon se ele decidisse pelo exílio, caso contrário, seria mantido prisioneiro para servir de chantagem contra seu pai e tio. Segundo a narrativa, Hakon aceitou partir para exílio, tendo se retirado para a Inglaterra, para se encontrar com o pai, e convencê-lo de ficar de fora da disputa pela Noruega. Com isso Olavo tinha uma preocupação a menos. Assim ele começou a enviar mensageiros para recrutar aliados, assim como, foi procurar pelos antigos senhores e homens que serviram seu pai, até finalmente retornar para Ringerike, reencontrando-se com seu padrasto, Sigurd Syr e sua mãe Asta.


Na reunião de família Olavo apresentou ao seu padrasto, mãe e demais convidados sua ideia para conquistar o trono norueguês. Olavo teria explicado a respeito do seu sonho que lhe dizia que ele seria rei da Noruega. Inclusive posteriormente Olavo passaria a interpretar aquele sonho como um desígnio de Deus, já que ele havia se tornado cristão. A Saga de São Olavo detalha em por menores o banquete de reencontro de Olavo com sua família. Não sabemos se toda aquela conversa ali narrada é verídica ou resultado de interpretações e alterações para enaltecer a história desse rei e santo. O Thing dos jarls A Saga de São Olavo como contada na Heimskgringla informa que após o retorno de Olavo Haraldson, ele convenceu seu padrasto Sigurd Syr a convocar uma assembleia com alguns dos principais jarl da época, os quais a fonte diz serem descendentes de Haroldo Cabelo Belo (c. 850-943). Na ocasião compareceram os irmãos Hroek e Ring de Hedemark, Gudrod de Gudbrandsdal, e os jarl deRaumarike, Hadaland e Valders, cujos nomes não são citados. Unindo-se a eles estavam Olavo e Sigurd. Dessa forma ocorreu nas terras altas norueguesas o thing (assembleia) dos jarl (governantes), cuja reunião a saga narra os discursos de alguns daqueles senhores. Mas o importante é que embora não adentre em detalhes, a narrativa diz que as palavras proferidas por Olavo foram cativantes, influentes, bravas e poderosas, e assim, prometendo restaurar a ordem no país, restabelecer a glória anterior e proteger a Noruega e seu povo das invasões dos reis suecos e dinamarqueses, Olavo foi aclamado rei naquele ano de 1015. A saga narra que o novo rei viajou pelas terras altas para cumprimentar seus novos súditos, e um grande festejo foi realizado em Nidaros (atual Trondheim) no norte do país. Mas apesar dessas celebrações o trono não estava garantido. A notícia que Olavo havia sido reconhecido como monarca se espalhou, assim, jarl Sueno Haakonson e seus aliados mobilizaram suas tropas para a guerra. Na prática Sueno era um dos regentes da Noruega e não aceitou perder tal posto para Olavo que havia passado vários anos no exterior. Com isso, nos meses seguintes ambos os lados passaram a reunir homens e recursos para a eminente batalha. O vencedor seria o rei da Noruega. O grande conflito entre Olavo e Sueno ocorreu em data incerta no ano de 1016, no que ficou conhecido como Batalha de Nesjar. Ainda hoje não há uma certeza em que local a batalha foi travada. Os historiadores e arqueólogos apontam que a batalha teria ocorrido no sudoeste do Oslofjord, o fiorde situado ao sul de Oslo (atual capital da Noruega). No caso a Batalha de Nesjar foi uma mistura de conflito naval e terrestre. A saga comenta que Olavo seguiu para lá com cem navios. Não há detalhes sobre o conflito, mas as poucas narrativas que o mencionam, contam que foi uma batalha acirrada e com muitas perdas. No caso, Sueno vendo que não tinha chance de vencer, abandonou o campo de batalha e se retirou para a Suécia. Lá ele ainda tentou buscar aliados para auxiliá-lo numa nova batalha contra Olavo, mas os jarls suecos recusaram ajuda e posteriormente Sueno adoeceu e faleceu, como conta a saga. A vitória em Nesjar consolidou a posse de Olavo como governante da Noruega, assumindo com o nome de Olavo II. Tal acontecimento inclusive tornou-se tema de canções e poemas, como o Nesjavísur de Sigvat Tórdason, como comentado.

O reinado de Olavo II (1015-1028) Olavo II governou do ano 1015 a 1028. Embora a Saga de São Olavo seja extensa e aponte vários acontecimentos durante sua época, ainda assim, eles são efêmeros, incertos e não nos garantem uma visão ampla do governo de Olavo II, estando focados em alguns detalhes do cotidiano dele, viagens, reuniões e algumas batalhas. Após a vitória sobre Sueno, Olavo retornou para o norte da Noruega e estabeleceu sua corte em Nidaros (atual Trondheim). Na pequena cidade, Olavo ordenou obras públicas, o que incluiu a construção de igrejas. Décadas depois a sua morte, seria construída aCatedral de Nidaros, a maior do país, além de ser também uma homenagem a São Olavo, onde dizem que seu corpo se encontra sepultado abaixo da catedral.

Nos primeiros anos de seu governo, Olavo deu continuidade a implantação do cristianismo no país. Outros monarcas anteriores como Haakon, o Bom e Olavo I haviam tentado tornar a Noruega um reino cristão, mas não conseguiram efetivamente, embora Olavo I tenha conquistado um bom progresso, mesmo que com base no uso da força. (BRAGANÇA JR; QUINTANA, 2010, p. 44-45). No entanto, a saga diz que Olavo II obteve mais êxito, ordenando a construção de igrejas, capelas, solicitando envio de padres e missionários, incentivando os nobres a se converterem, e também ameaçando parte da população a conversão, pois houve resistência. A Saga de São Olavo comenta que o próprio monarca teria viajado pelo país a fim de pregar a fé cristã, mostrando os benefícios de ser um cristão, assim como, comentando que os velhos deuses deveriam ser abandonados e trocados pelo o único deus verdadeiro. Essas peregrinações do rei inclusive tornaram-se temas de canções e poemas. Todavia, não se sabe até onde ele realmente realizou essas viagens, ou se parte delas não passam de propaganda cristã para sua hagiografia. Por volta do ano de 1017 ou 1018, Olavo II recebeu em sua corte a visita de um escaldo (poeta) chamado Sigvat Tórdason, o qual lhe compôs dois poemas como mencionado anteriormente neste texto. Por outro lado, nesses primeiros anos ele manteve acordos e alianças com os suecos para evitar novas invasões, além de ter também estabelecido novos acordos comerciais com os islandeses. No ano de 1019, o rei desposou Astrid Olofsdotter, filha deOlavo, o Tesoureiro (Olaf Skötkonung), rei da Suécia, e que também era cristão. O casamento com a princesa sueca foi mais um meio para firmar a paz entre os dois reinos e evitar novos conflitos. Dessa união nasceu a princesa Wulfhild (1020-1071), a qual posteriormente casou-se com o Duque da Saxônia. Além dessa filha, Olavo II também teve outros filhos bastardos, como Magno Olafson (1024-1047), que inclusive virou rei da Noruega. Apesar da Saga de São Olavo ser extensa, ela como dito, aborda vários temas menores durante os anos de reinado do monarca, inclusive dando atenção a questões políticas relacionadas a desavenças entre jarl, fazendeiros, guerreiros, etc. Pelo que a saga sugere, Olavo II foi um rei atencioso para questões políticas, principalmente pelo fato de viajar pelo país, indo tratar de tais assuntos. Nesse ponto alguns historiadores comentam que caso tais narrativas sejam verídicas, Olavo II parece ter sido um rei centralizador, pois não se percebe ele fazendo uso de funcionários de corte para tratar de assuntos nas províncias. Embora Olavo II tenha evitado problemas com os suecos e os islandeses, ele não foi sábio em fazer o mesmo com os dinamarqueses. Por volta de 1026, Olavo II aliado ao novo rei da Suécia, Anund Jacob (c.1008-1050), começaram a atacar embarcações dinamarquesas no Báltico. Uma das ideias era barrar o acesso de navios dinamarqueses a região, assim como, abrir caminho para seu território para uma futura invasão. A marinha dinamarquesa na ocasião sob comando do jarl Ulf, estava reduzida, logo era alvo das investidas norueguesas e sueca. No entanto, o rei da Dinamarca, Canuto II, o Grande soube dos ataques e mobilizou sua marinha. A frota sueco-norueguesa confrontou a frota dinamarquesa na chamada Batalha de Helgea.

A Batalha de Helgea (1026) foi travada no rio Helge (significa rio Santo), no sul da Suécia. Lá o conflito ocorreu de forma intensa começando com uma emboscada. A frota sueco-norueguesa estava atracada em um porto na entrada do rio, a ideia era concentrar a frota dinamarquesa que estava mais numerosa na foz do rio, impedindo a mobilidade da mesma. Isso quase ocorreu, pois embora o rei Canuto que esteve presente no navio Dragão, como informa a saga, tenha de início caído na emboscada, seu almirante, jarl Ulf estava em mar aberto e conseguiu interceptar os suecos e noruegueses que haviam saído sorrateiramente no intuito de atacar os dinamarqueses pela retaguarda. Pela falta de informações mais precisas sobre esse conflito naval, é dito que a frota dinamarquesa estava desorganizada e foi avariada, pois alguns navios colidiram com outros, e assim, Olavo II e Anund obtiveram uma singela vitória antes de fugirem para leste, adentrado o Báltico. A derrocada de Olavo II (1028-1030) Embora tenha obtido vitória sobre a frota do