• Sérgio Fadul - Seguindo os passos da História

Santo Olavo II



Ainda hoje é comum ouvir que todos os vikings haviam sido pagãos e que somente tiveram contato com o cristianismo fora da Escandinávia. Na verdade, a história não foi bem assim. Relatos já apontam a visita de missionários cristãos na Dinamarca, ainda no século IX. Um desses missionários foi o monge beneditino Ansgário de Hamburgo (801-865), que posteriormente visitou também a Suécia. No caso, Ansgário que foi canonizado com o nome de São Oscar, foi um dos principais missionários a difundir o cristianismo em terras nórdicas, inclusive promovendo a construção de igrejas e capelas. Logo, os vikings ainda no século IX já haviam começado a aderir a fé cristã, não tendo sido algo feito no exterior ou séculos depois. O rei Haraldo Klak da Dinamarca é conhecido como o primeiro rei viking a ter se convertido ao cristianismo, ainda no começo do século IX. Inclusive teria sido o responsável por levar o monge Ansgário para a Dinamarca, durante o seu retorno do seu exílio na França. (BRAGANÇA JR; QUINTANA, 2010, p. 43). No entanto, embora algumas comunidades houvessem se convertido a fé de Cristo, e até mesmo alguns monarcas tenham tentado entre os séculos IX e X difundir o cristianismo em seus reinos, o cristianismo não se espalhou rapidamente pelos reinos nórdicos, ele somente começou a se firmar no século XI em diante. No caso de São Olavo ele como vários outros santos, somente foi canonizado após a morte, quando seus milagres ou martírio foram reconhecidos pela Igreja Católica Apostólica Romana. Algo que comentarei mais especificamente adiante, mas antes de chegar a canonização em si, precisamos conhecer quem foi esse homem. Neste caso, Olavo II Haraldsson foi um príncipe viking de origem norueguesa que viajou por parte da Europa ainda na sua juventude, antes de retornar para sua terra natal, a fim de disputar o trono norueguês. Porém, quando ele retornou, Olavo já havia se convertido ao cristianismo, então durante seu reinado, uma de suas missões foi tornar a Noruega um reino cristão. Sendo assim, veremos algumas fontes para se conhecer a vida desse rei viking que se tornou santo, e comentarei a respeito de alguns pontos importantes da sua vida, para concluir com sua canonização.


As fontes sobre Olavo II:

Um dos problemas para se estudar a história viking, período que ocorreu entre o final do século VIII até meados do século XI, que cronologicamente ficou conhecido como Era Viking ou Idade Viking, diz respeito que as fontes escritas são escassas. Muito do material escrito da época pouco informa sobre a história, e algumas informações mais detalhadas advêm de estrangeiros, os quais em alguns casos não foram imparciais em suas descrições e comentários, e até mesmo repetindo e confirmando estereótipos. Por outro lado, as principais fontes escritas de origem nórdica, datam dos séculos XII ao XIV, ou seja, narrativas de cem, duzentos ou trezentos anos após os acontecimentos que elas narram. Logo devido a essa distância, as histórias sobre Olavo II devem ser lidas com cautela, pois além de conter imprecisões históricas, também estão passíveis de terem sido romanceadas. Olavo II teve a sorte de que algumas das narrativas que abordam seus feitos, datam de períodos não tão distantes da sua vida. No caso se destaca a produção literária do poeta Sighvart Tórdason (?-1043) o qual teria sido poeta na corte do rei Olavo. Tórdason é lembrado por ter composto um poema intitulado Nesjavísur, o qual celebra a vitória do rei Olavo na Batalha de Nesjar (1016), e o poema Víkingavísur que narra algumas das façanhas do monarca. Entretanto esse poemas são breves e pouco nos informam sobre outros momentos da vida desse rei. Não obstante, Olavo também é mencionado no Ágrip of Nóregskonungasögum (Sinopse da Saga dos Reis Noruegueses), documento incompleto que traça o nome dos monarcas que governaram a Noruega. Tal documento é datado do século XII e serviu de fonte para o catálogo de reis contido no livro Historia Norwegiae (XIII). O Ágrip também traz poucas informações sobre Olavo. Entretanto, as fontes mais detalhadas sobre Olavo, apresentam um caráter religioso. A primeira delas consiste na Antiga Saga de São Olavo (c. 1200), narrativa de autoria anônima que serviu de base para outras duas versões: uma encontrada no livro Heimskgringla, intitulada Ólafs saga helga (Saga de São Olavo), cuja autoria é atribuída ao poeta islandês Snorri Sturluson (1179-1231), possível autor também da Edda em Prosa e de outras obras. No caso da Heimskgringla, esse livro consiste numa coletânea de sagas de reis (Konungasögur) noruegueses, o que inclui genealogias, dinastias e até mesmo mitos sobre a origem de algumas famílias nobres. A outra versão inspirada pela antiga saga, trata-se da Legendária Saga de São Olavo, narrativa de autoria anônima e datada do século XIII. No caso, a Saga de São Olavo é a narrativa com maior número de informações sobre ele. Outra fonte de caráter religioso sobre Olavo II diz respeito a uma obra latina de caráter hagiográfico, intitulada Passio et miracula beati Olavi (Paixão e Milagre do abençoado Olavo), que consiste numa obra de autoria anônima e datada do século XII, a qual claramente já apresentava um discurso cristão e hagiográfico de enaltecimento desse santo norueguês. A obra é notória por apresentar um Olavo devoto a Cristo e que teria realizado milagres. Sobre ela comentarei mais adiante quando abordar a questão da canonização de Olavo. Alguns acontecimentos relacionados a vida de Olavo II também foram mencionados brevemente na Crônica Anglo-saxãs (XII), mas sem detalhes. Todavia, no Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum (XII) de Adam de Bremen, encontra-se algumas informações sobre Olavo, especialmente sobre o conflito entre ele e o rei Canuto, o Grande. A Historia Norwegiae (XIII) também traz algumas informações escassas sobre o monarca. Além dessas três crônicas, existem outros livros também que citam o monarca, mas de forma breve. Nesse estudo procurei comentar a vida de São Olavo principalmente através da Heimskgringla, daHistoria Norwegiae e do Passio et miracula beati Olavi. Neste sentido, adianto que ambas as obras chegam a ser contraditórias sobre determinados acontecimentos, inclusive sugerem datas diferentes e até o fato que Olavo estaria em dois lugares ao mesmo tempo participando de batalhas. Mas isso não seria um milagre, mas um equivoco das fontes sobre as aventuras desse rei guerreiro. O jovem guerreiro Assim como outros governantes no passado, muitos aspectos sobre a infância e adolescência deles são desconhecidos, pois em geral os biógrafos tendiam a narrar a respeito da fase adulta destes homens. No caso de Olavo isso não foi diferente, embora que sua adolescência foi melhor comentada em algumas situações. Segundo a Saga de São Olavo na Heimskgringla, Olavo Haraldson (Ólaf Haraldson) nasceu em data incerta no ano de 995, sendo filho de Haroldo Grenske e Asta Gudbrandsdatter, tendo nascido em Ringerike como sugerem as fontes sobre sua vida. Era dito que por parte de pai ele descendia de Haroldo Cabelo Belo, o primeiro rei da Noruega unificada. Sobre seu pai pouco se sabe, mas era considerado o jarl (governante) de Vestfold. Embora que as fontes da época diga que Haroldo fosse rei. Provavelmente trata-se de um erro de interpretação, ao considerar que os jarl fossem monarcas. Haroldo Grenske acabou falecendo em data desconhecida e Asta casou-se com Sigurd Syr, jarl de Ringerike. Desse matrimônio Asta gerou Haraldo Hardrada (c. 1015-1066), o qual também se tornou um rei futuramente. Não se sabe como foi a infância de Olavo, porém, a saga informa que no ano de 1007, quando ele contava com seus 12 anos de idade, o jovem príncipe foi enviado por seu padrasto ao m