• Julia Braun - Veja

Onde os cristãos são vítimas de opressão e violência


José Li, Frederick, Samuel e Neemias relatam a violência sofrida; cristianismo corre risco em parte do Oriente Médio e enfrenta governos extremistas na Ásia


Cruz é retirada de igreja protestante pelo governo chinês no Vilarejo de Muyang em Pingyang - 29/07/2015 (Mark Schiefelbein/AP)


Passados 2.000 anos das perseguições que levavam os primeiros cristãos às arenas de Roma, as agressões e a violência contra os seguidores do Evangelho continuam presentes em grande parte do mundo neste início do século XXI. Para milhões de cristãos, a pretensão de liberdade religiosa voltou a ser motivo de conflito. Em países como Iraque, Síria e Coreia do Norte, a insistência pode ser questão de vida e morte. Em outros lugares, admitir ou defender a própria fé pode abrir caminho para a prisão.


Algumas pessoas têm muito a contar sobre esse tema ainda atual. O padre José Li GuoZhong deixou a China para seguir sua vocação religiosa no Brasil. O pastor Samuel foi obrigado a embarcar para fora do país sua mulher e sua filha diante das tantas ameaças sofridas pela família na Índia. O hoje missionário Frederick buscou refúgio na religião depois de sobreviver ao massacre de cristãos na Universidade de Garissa, no Quênia.

As limitações à liberdade religiosa vêm crescendo em todo o mundo nos últimos anos, segundo estudos elaborados pelo Pew Research Center. Mais de um quarto das nações enfrentava níveis altos ou muito altos de restrições a religiões em 2016, de acordo com o último relatório do centro de pesquisas americano, publicado em julho.

O maior grupo religioso do mundo também é o mais perseguido: os cristãos, aproximadamente 31% da população mundial. Segundo dados da organização Portas Abertas, com sede na Holanda, mais de 215 milhões de praticantes do Evangelho, em suas diferentes denominações, enfrentam algum tipo de oposição à prática de sua fé.


Relatório da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, na sigla em inglês) mostra que a hostilidade contra os seguidores do cristianismo na atualidade é pior do que em qualquer outro momento da história. Dos dez países em que os cristãos sofrem perseguição extrema, de acordo com a Portas Abertas, oito são de maioria muçulmana. A grande preocupação dos especialistas atualmente é que o extremismo islâmico e a radicalização acabem com o credo cristão no Oriente Médio.


“Estamos entrando em um novo período e logo poderemos presenciar o fim da presença da comunidade cristã em grande parte da região. Os fiéis estão deixando seu país de origem e suas casas em busca de segurança”, diz a advogada Nina Shea, diretora do Centro de Liberdade Religiosa do Instituto Hudson, em Washington.


Shea também destaca a difusão do extremismo para outras regiões do globo, como a África. Além da radicalização islâmica, o nacionalismo religioso em países como a Índia, Mianmar e o Nepal contribui para o aumento da perseguição aos cristãos.


Oriente Médio


Desde antes do início do conflito envolvendo o Estado Islâmico e outros grupos extremistas na Síria e no Iraque, os cristãos vêm sofrendo crimes de guerra que já se classificam como genocídio. Decapitações, crucificações e escravizadão em massa foram algumas das crueldades registradas na região contra o grupo religioso.


A Síria é considerada protagonista da “maior crise de deslocados no mundo”, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Desde o início da guerra civil em 2011, estima-se que entre três quartos e metade da população cristã tenha fugido da violência no país.


O nível de perseguição registrado pela Portas Abertas nesta nação islâmica deflagrada, contudo, vem caindo nos últimos anos, principalmente porque hoje há menos fiéis nas áreas controladas pelos jihadistas.


O mesmo acontece no Iraque, onde a população cristã caiu de 1,4 milhão no início do século para menos de 200.000 atualmente. “Essa civilização antiga foi quase totalmente exterminada, e a comunidade que sobrou é extremamente frágil e vulnerável”, diz Nina Shea.


O Afeganistão, um país instável, ainda dilacerado pelos extremistas do Talibã e afastado da liberdade e da paz há séculos, também vem sofrendo com o crescimento da violência gerada pela insurgência e pela aplicação mais severa das leis tribais.

Igreja da Multiplicação dos Pães e Peixes, destruída por judeus ortodoxos em Tabgha, Israel (fev/2017)

Mesmo nos territórios palestinos, a população cristã tem diminuído acentuadamente. Em especial na Faixa de Gaza, bombardeada com frequência pelo poder de destruição desproporcional de Israel.


As leis na Cisjordânia geralmente protegem a liberdade religiosa, enquanto as de Gaza são restritivas. Embora amplamente tolerados pelo Hamas, os cristãos são discriminados e ameaçados por grupos de vigilantes muçulmanos radicais em Gaza.


Ásia


No topo da lista, elaborada anualmente pela organização, está a Coreia do Norte, onde o cristianismo é tido pelo regime como credo ocidental e hostil. Na nação mais fechada do mundo, espera-se que os cidadãos adorem somente um “Deus” – o ditador Kim Jong-un. Muitos norte-coreanos escondem sua fé até mesmo da própria família, temendo ser presos e enviados para campos de reeducação e trabalhos forçados.


As únicas igrejas cristãs autorizadas no país não chegam a ser templos espirituais, mas apenas fachadas de “liberdade religiosa” destinadas a iludir jornalistas e visitantes estrangeiros.


Também na Ásia encontra-se a maior fonte de perseguição atual – a China. Com uma população de 1,4 bilhão de habitantes, o país tem aproximadamente 6,9% de cristãos, que enfrentam um cenário bem pouco favorável para a preservação de sua fé. Este é um dos países onde números expressivos de seguidores do Evangelho sofrem algum tipo de restrição.

Em sua empreitada agressiva para consolidar e estender no tempo seu poder, o presidente chinês, Xi Jinping, tem adotado mais mecanismos de controle em todas as áreas da sociedade, incluindo os negócios, a imprensa, o terceiro setor e as religiões que, por anos, resistiram à doutrina comunista. Não somente os cristãos são vítimas da intolerância incentivada pelo Estado, mas também os muçulmanos, os budistas tibetanos e outras minorias religiosas.

Bandeira chinesa é posta na frente da Igreja, no vilarejo de Huangtuang, província de Hebei – 30/09/2018


A perseguição severa do regime de Pequim aos cristãos começou justamente com a proclamação da República Popular da China, em 1949. Desde então, os católicos estão divididos em duas Igrejas: aquela controlada pela Associação Patriótica Católica Chinesa, considerada legal e estabelecida pelo governo comunista como mais uma fachada de tolerância, e a clandestina, não reconhecida e perseguida pelas autoridades.


A Associação Patriótica, entretanto, não era legitimada pelo Vaticano até o fim de setembro passado, quando a Santa Sé assinou um histórico acordo com Pequim que dá a essa Igreja chinesa voz decisiva na nomeação de bispos no país. O pacto permite indiretamente que o Partido escolha os religiosos que controlarão a instituição e, provavelmente, deverá aumentar ainda mais seu domínio local.


Amplamente criticado dentro e fora da Igreja, o acordo pelo menos permitiu a criação de um canal de diálogo Roma-Pequim, especialmente para evitar as perseguições aos católicos chineses. O papa Francisco deixou claro que ainda será o responsável pela designação dos bispos na China. Dom Guo Jincai e Dom Yang Xiaoting, ambos efetivamente sacerdotes católicos, participaram do último encontro de bispos, na Itália, e foram recebidos pelo papa. Mas a questão ainda é controversa.


“Os católicos estão se sentindo traídos pelo acordo”, afirmou o padre chinês José Li GuoZhong, pároco da Igreja São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, a VEJA. “A Santa Sé reconheceu sete bispos da Igreja Patriótica, mas o governo chinês não reconhece nenhuma liderança da Igreja clandestina.”

Uma das maiores dificuldades do católico chinês é, além da perseguição, obter bíblias fiéis à sua tradução, sem a interferência do governo.

A maior parte dos fiéis tampouco acredita que o pacto possa acabar com a intolerância oficial contra as chamadas “igrejas subterrâneas” ou “igrejas domésticas” – uma prática que remonta aos primórdios do cristianismo e que tem sido adotada sempre que há perseguição. Ainda assim, eles realmente esperam que as agressões do governo chinês diminuam.

O padre da Paróquia São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, José Li GuoZhong


Padre Li deixou a China para vir ao Brasil fazer o seminário. No país não havia cursos de formação de religiosos


Além dos fiéis e dos líderes religiosos, os próprios templos católicos são hostilizados. Cruzes são arrancadas com frequência, fachadas são depredadas e, em algumas ocasiões, prédios inteiros foram incendiados.


Segundo o padre Li, que sofreu a perseguição patrocinada pelo governo chinês durante a infância, algumas congregações são obrigadas a fixar uma bandeira da China e um retrato do presidente Xi em seus altares para poderem exercer sua fé livremente.

Igreja é demolida pelo governo, na China

“Os que se declaram cristão são discriminados nos trabalhos e nas escolas”, afirma. “Mesmo depois de tantos anos, não há liberdade religiosa no país.”


Nacionalismo religioso


O crescimento do nacionalismo religioso em todo o mundo, especialmente no sul da Ásia, também dá impulso à intolerância religiosa.


Baseada na ideia de que um credo único pode fortalecer a unidade de um país e sua identidade nacional, a ideologia tem motivado atos de hostilidade contra minorias cristãs e repressão pelo próprio Estado na Índia, Mianmar, Butão, Nepal e Sri Lanka.


Desde que tomou o poder, o partido de extrema direita Bharatiya Janata (BJP, na sigla em inglês) tem incentivado a ideia de que a Índia deve ser uma nação hindu, com o hinduísmo como sua única fé. Ligada à legenda, a organização Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) é a principal responsável por disseminar essas ideias, por meio da perseguição religiosa.


A população de quase 64 milhões de cristãos tem visto o aumento drástico dos casos de agressão física, de ataques contra igrejas e comunidades, de prisões arbitrárias e de violência sexual desde maio de 2014, quando o BJP conquistou a maioria dos assentos no Parlamento e seu líder, Narendra Modi, assumiu o comando do país como primeiro-ministro.


O objetivo do governo de Modi é fazer da Índia uma nação 100% hindu, livre de outras religiões minoritárias até o fim de 2021. Os poderes Legislativo e Judiciário e organizações ligadas ao governo também têm trabalhado para isso. Em 1947, a intolerância indiana contra os muçulmanos forçara a criação do Estado do Paquistão.

“Na Índia há centenas de ataques religiosamente motivados contra cristãos todos os anos”, diz o especialista em liberdade religiosa e ideologias radicais do Centro de Liberdade Religiosa do Instituto Hudson, Paul Marshall. “Esse é talvez o local menos reconhecido dentre os que hoje perseguem os cristãos”, completa.


Pastor Samuel* é um missionário que sofre ameaças de morte constantemente em seu trabalho de fundar igrejas e converter cidadãos indianos ao cristianismo. A pressão é tanta que sua mulher e sua filha tiveram de sair do país, para a própria segurança, e deixá-lo sozinho em seu trabalho missionário.


“Até agora, nos primeiros nove meses de 2018, já registramos 500 ataques contra fiéis e igrejas. Nove pessoas morreram e ao menos dezessete mulheres e meninas foram estupradas”, afirma Samuel, colaborador da Portas Abertas a VEJA. “As pessoas que estão fazendo isso são praticamente todas parte do governo e sabem que não serão punidas.”


Grupos hindus também acusam instituições de caridade cristãs de usar suas atividades para a conversão e se valem de ameaças e da violência para expulsar líderes religiosos e missionários do país. “Centenas de milhares de pessoas estão sendo forçadas a deixar sua fé e se converter ao hinduísmo. A situação é humilhante para muitos”, diz o pastor.


Desde a intensa operação militar que levou à fuga de mais de 700.000 muçulmanos rohingyas de Mianmar, em 2015, o país está na mira da comunidade internacional. O Exército do país foi acusado pela Organização das Nações Unidas (ONU) de realizar execuções em massa de integrantes da minoria étnico-religiosa com “intenção genocida”.


O nacionalismo religioso impulsionado pelo governo de Mianmar, de maioria budista, também atinge outros credos. Em áreas predominantemente cristãs, como o Kachin e o norte do estado de Shan, seguidores do Evangelho são mortos, detidos e forçados a fugir para viver nas circunstâncias terríveis das dezenas de milhares abrigadas em campos de refugiados.


Recentemente, militantes extremistas pró-China atacaram diversas igrejas na fronteira com o país e sequestraram pastores e missionários, alegando que as comunidades não eram autorizadas por suas lideranças. Em diversas outras ocasiões, líderes religiosos foram presos arbitrariamente e cristãos foram assassinados por sua fé.


África


Assim como no Oriente Médio, o extremismo e a opressão islâmica também são os maiores causadores de perseguição na África.


O Boko Haram, grupo ligado ao Estado Islâmico, tem praticado genocídio contra os cristãos no norte da Nigéria, obrigando mais de 1,8 milhão de pessoas a deixarem suas casas. Na diocese de Kafanchan, no norte do país, em cinco anos, 988 pessoas foram mortas e 71 aldeias de maioria cristã foram destruídas, além de 2.700 casas e vinte igrejas.


Já o grupo terrorista Al Shabab, ligado aos extremistas da Al Qaeda, atua no sul da Somália e no oeste do Quênia. Em 2 de abril de 2015, os jihadistas invadiram a Universidade de Garissa, localizada a 400 quilômetros da capital queniana de Nairóbi, e mataram pelo menos 147 pessoas.


O principal alvo dos terroristas foi a comunidade cristã. Frederick, aluno da universidade, conta que homens armados do Al Shabab exigiam que os estudantes e professores recitassem trechos do Alcorão e atiravam contra aqueles que não conseguiam fazê-lo. O jovem, que estudava para ser professor, só se salvou porque se escondeu debaixo de sua cama.