• Sérgio Fadul / iCatolica

São Martinho de Dume


São Martinho de Dume (Braga)


Oriundo da Panônia, atual Hungria, dirigiu-se ainda jovem para o Oriente, onde professou vida regular: estudou o grego e outras ciências eclesiásticas em que muito cedo se distinguiu, até ser classificado, pelo eminente Doutor Santo Isidoro, como ilustre na fé e na ciência. Também Gregório de Tours o considerou entre os homens insuperáveis do seu tempo. Regressando do Oriente, dirigiu-se depois a Roma e França, onde travou conhecimento com as personagens por então mais insignes em saber e santidade. Sobretudo, quis visitar o túmulo do seu homônimo e compatriota, S. Martinho de Tours, que desde então ficará considerando como seu patrono e modelo. Foi também por essa altura que Martinho se encontrou com o rei dos Suevos, Charrarico, ao qual acompanhou para o noroeste da Península Ibérica, em 550, onde, com restos do gentilismo e bastante ignorância religiosa, se espalhara o Arianismo.


Para acorrer a tantos males, não tardou Martinho em planejar e colocar em andamento seu vigoroso apostolado. Num mosteiro, edificado pelo mesmo rei, em Dume, ao lado de Braga, assenta o grande apóstolo dos suevos suas instalações como escola de monaquismo e base de irradiação catequética e missionária. A igreja do mosteiro é dedicada a S. Martinho de Tours, e foi sagrada em 558. O seu abade foi elevado ao episcopado pelo Bispo de Braga já em 556, em atenção ao seu exímio saber e extraordinário zelo e santidade. Com a subida ao trono do rei Teodomiro (em 559), consumava-se o regresso dos Suevos ao Catolicismo, deixando o Arianismo. Ilustre por tão preclaras prerrogativas, passa Martinho para a Sé de Braga, em 569, quando o Catolicismo nesta região gozava já de alto esplendor, o que tornou possível o 1° Concílio de Braga, em 561, no pontificado de João III. Em 572, foi Martinho a alma do 2° Concílio de Braga. Nesta altura escreveu ele: “Com a ajuda da graça de Deus, nenhuma dúvida há sobre a unidade e retidão da fé nesta província”.


S. Martinho de Dume não esqueceu da importância e eficácia do apostolado da pena. Deixou assim várias obras sobre as virtudes monásticas, bem como matérias teológicas e canônicas, pelas quais foi depois reputado e celebrado como Doutor. Faleceu a 20 de março de 579 e foi sepultado na catedral de Dume; mas desde 1606 estão depositadas as suas relíquias na Sé de Braga. Compusera para si, em latim, o seguinte epitáfio sepulcral, em que mostra a veneração que dedicava ao santo Bispo de Tours: “Nascido na Panônia, atravessando vastos mares, impelido por sinais divinos para o seio da Galiza, sagrado Bispo nesta tua igreja, ó Martinho confessor, nela instituí o culto e a celebração da Missa. Tendo-te seguido, ó Patrono, eu, o teu servo Martinho, igual em nome que não em mérito, repouso agora aqui na paz de Cristo”.


Deus, inspirador dos pastores da Igreja e luz de todos os povos, que chamastes o santo bispo Martinho para ensinar ao vosso povo os mistérios do reino, concedei-nos que, animados pelo seu exemplo e iluminados pela sua doutrina, cheguemos ao esplendor eterno da vossa glória. Por Nosso Senhor. Amém.


São Martinho de Dume, rogai por nós!



(Texto retirado do site de Filosofia Portuguesa) Obras Nascido na Panónia entre 518-525 e falecido em 579, foi Bispo da diocese de Braga e fundador do mosteiro de Dume, tendo-se revelado um dos principais instigadores do movimento monacal e da cristianização nesta região da Península. Foi autor de um conjunto de pequenos tratados de conteúdo eminentemente ético, entre os quais a Formula vitae honestae, durante muitos séculos atribuído a Séneca, o qual constitui também um dos primeiros tratados, escritos entre nós, da corrente literária de "espelho de príncipes", que tanta fortuna viria a alcançar na Idade Média.A sua obra principal, a Formula vitae honestae, dedicada ao rei dos Suevos, é elaborada seguindo apenas os preceitos da razão natural, sem recurso à moral revelada e, portanto, sem apoio na exegese bíblica, facto pouco comum entre os autores cristãos. Disserta sobretudo sobre as quatro virtudes cardinais, numa linha muito marcada pelo estoicismo, tendo em vista a formação do homem prudente e sábio, caracterizado pela ponderação e pela superação da dimensão aparente da vida. O homem que a si próprio se basta, que busca apenas o que pode alcançar e que não se arroja a coisa mais alta, na qual não possa sustentar-se sem temor, nem subir sem queda. O homem capaz de viver desassustado e que espera desassombradamente a morte como momento de libertação da tribulação do mundo, resgatando por pouco os seus desejos, por só dever cuidar em que eles cessem, amoldando-se ao divino exemplar.Já no seu Tratado dos Costumes (De Moribus), prolonga o tema da obra anterior, mas reforça a sua componente ascética, como era timbre do movimento monacal de então, no quadro de um ideal de recolhimento e de purificação interior, assumindo-se a solidão como a forma mais prudente de viver com inculpáveis, por ter melhor e mais formoso ânimo aquele que trata sobretudo com Deus.Uma última referência cabe ainda ao De correctione rusticorum, obra de fecundo interesse etnológico e antropológico, por fixar e descrever as práticas religiosas mais comuns entre as religiões pagãs da Galécia, em boa medida de inspiração céltica. Nesta obra, de intenção eminentemente evangelizadora, expõe o essencial da doutrina cristã acerca da criação do mundo e do homem, mas em fórmulas claras, tendo em vista o auditório a que se destinavam, transformando o pragmatismo e a simplicidade em caracteres gerais de doutrinação, em articulação com as exigências pastorais da época. Opúsculos Morais de S. Martinho Bracarense (tradução portuguesa de António Caetano do Amaral), Lisboa, 1768; Pastoral sobre a instrução dos rústicos, (tradução portuguesa de A. Aires do Nascimento), Lisboa, 1998. Para uma referência discriminada dos seus textos veja-se Francisco José Veloso, «Obras de S. Martinho de Dume» Bracara Augusta, XXIX, (1975), pp. 61-110. Destacou-se também pela recompilação das sentenças dos Padres do Deserto (Aegyptiorum Patrum Sententiae), que prolongou numa série de escritos de espiritualidade monacal, antecipando-se a Santo Isidoro e Tajón, e também pelo seu De correctione rusticorum, que marcará o rumo tomado pela pastoral da igreja, sobretudo após o concílio toledano III (589).Mas por ser obra dedicada a um chefe temporal, entre as quatro virtudes emerge naturalmente a justiça, assente na lei natural, como participação da lei divina, tácita convenção da natureza e vínculo da humana sociedade, ou não fosse a justiça, na tradição do pensamento cristão o principal sustentáculo do poder temporal.Pelo conjunto das suas obras de doutrinação moral, pela sua ação pastoral em prol da correção dos rústicos, pela conversão do reino dos suevos e também pela ação cultural do mosteiro de Dume, por ele fundado, a qual se desenvolveu por toda a idade média, S. Martinho tem uma presença marcante nesta época remota da história cultural da Península.Seguem-se os tratados De ira, Pro repellenda jactancia, De superbia e Exhortatio humilitatis. O primeiro constitui um comentário da obra de Séneca com o mesmo nome, sendo a ira analisada no seu contraste com a prudência e a fortaleza, uma forma de loucura que desta apenas se distingue pela sua dimensão mais momentânea. O segundo e o terceiro tratados versam sobre a crítica ao orgulho e ao amor-próprio, que levam o homem a esquecer o quanto deve a Deus na consecução dos seus atos mais grandiosos. O quarto é o culminar dos anteriores, exortando a humildade como a mais excelente das virtudes cristãs, pois parecendo que mais rebaixa o homem, é no entanto a que mais o eleva, sendo mais alta que o céu, pois o conduz para o seu reino.

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