• Sérgio Fadul - Franciscanos.org

São Martinho de Tours


Eram os primeiros dias de novembro de 397. No povoado francês de Candes, um Bispo ancião jazia gravemente enfermo num mosteiro. Multidões vindas de Poitiers e de Tours montavam guarda à porta daquele santo lugar. No dia 8, logo após seu falecimento, o silêncio entrecortado por preces cedeu lugar a uma barulhenta discussão:

– Martinho foi nosso monge e nosso abade. Por isso pedimos que nos entreguem o corpo! – diziam os habitantes de Poitiers.

– Deus o tirou de vós e o deu a nós – replicavam os de Tours. Segundo a tradição, seu túmulo deve ficar na cidade onde foi consagrado! O que fizera em vida esse Prelado para provocar tal disputa?


Atração pela vida de anacoreta


Martinho nasceu na Panônia, região situada entre a Áustria e Hungria, em 316 ou 317. Sua família pertencia à aristocracia galo-romana e era pagã. O nome, que significa “pequeno Marte”, foi-lhe dado pelo pai em homenagem ao deus da guerra. Oficial do exército romano, queria proporcionar ao filho uma brilhante carreira militar.


A infância de Martinho transcorreu em Ticinum, a atual Pavia. Não ficaram registrados, porém, os fatos desse período de sua vida, à exceção de um: aos dez anos de idade, desapareceu de casa, deixando aflitos seus progenitores; dois dias depois, reapareceu bem alimentado e sem nenhuma marca de maus-tratos. O que acontecera? Às insistentes perguntas dos pais, parentes e vizinhos, ele oferecia como resposta apenas um silêncio envolvido em muita paz.


Tempos depois se conheceria o ocorrido: o menino fora visitar os cristãos, pois almejava conhecê-los e aprender algo sobre o Deus dos mártires, dos quais muito ouvira falar. Entretanto, sentia ainda maior atração pelos homens que, no Oriente, deixavam tudo quanto o mundo podia lhes oferecer e se retiravam para regiões desérticas, a fim de levar uma vida de ascese e oração.


A cada dia aumentava o seu desejo de unir-se a esses anacoretas, quer fosse no Egito, na Síria ou onde Deus quisesse o conduzir. Restava-lhe, porém, um longo caminho a percorrer até atingir esse ansiado objetivo.


“Martinho cobriu-Me com este manto”


Aos quinze anos, viu-se obrigado a entrar no exército, devido a um edito imperial. Divergem os historiadores sobre a duração do seu serviço militar. Alguns julgam ter permanecido no exército o tempo então exigido: 25 anos. Como soldado da Guarda Imperial, passou em Amiens a maior parte de sua vida castrense.


Aconteceu ali o célebre episódio que ficou imortalizado nas páginas hagiográficas de Martinho e em inúmeras obras de arte. Durante o rigoroso inverno de 335, o santo passava por uma das portas da cidade quando avistou um mendigo tremendo de frio, o qual estendeu-lhe a mão, pedindo auxílio. Não tinha dinheiro para dar-lhe, mas, sem titubear, sacou a espada, dividiu ao meio sua capa de frio e entregou uma parte ao infeliz. Nessa noite, o jovem soldado viu em sonhos Cristo Jesus vestido com a metade do agasalho por ele doado. E ouviu-O dizer com voz forte a uma multidão de anjos: “Martinho, que é apenas catecúmeno, cobriu-Me com este manto”.1 Embora ainda não batizado, sua alma estava já embebida da caridade cristã.


Na vida militar, Martinho comportava-se de modo diferente dos seus companheiros de caserna. Assim, por exemplo, todo membro da Guarda Imperial dispunha de um cavalo e um escravo, ser desprezível e sem direitos, segundo os critérios da época. Entretanto, o jovem soldado tratava-o como um irmão, a ponto de lavar-lhe ele mesmo os pés e servi-lo durante as refeições.


Retorno à Panônia e controvérsia ariana


Quando teria sido lavado Martinho nas águas batismais? Não se sabe ao certo. Provavelmente, ainda em Amiens, pois quando deixou o exército, no ano 356, dirigiu-se para Tréveris, onde havia uma ativa comunidade católica.


Atraído pela fama de santidade do Bispo Hilário, viajou para Poitiers a fim de tomar o venerável prelado como mestre e guia. Este o recebeu de braços abertos, e quis ordená-lo diácono. Martinho, porém, sentindo-se indigno desse nobre encargo, aceitou somente a ordem menor do exorcistado.


Aprofundou-se no conhecimento da doutrina cristã e, prestes a renunciar por completo ao mundo, julgou ser um dever visitar os seus pais, que haviam retornado à Panônia, pois ansiava por vê-los professar a Fé cristã. Seu mestre animou–o nesse intento, e ao mesmo tempo o fez prometer que voltaria.


Empreendeu a viagem, enfrentando muitas dificuldades e escapando por pouco de ser morto por salteadores ao atravessar os Alpes. Afinal, encontrou-se com seus progenitores, falou-lhes de Cristo, da vida eterna e incitou-os a receberem o Batismo. O coração materno sentiu- se logo inclinado a crer naquela doutrina meio misteriosa, mas sublime, exposta pelo filho. O pai, entretanto, se manteve obstinado nos costumes pagãos.


Importante é lembrar que nessa época travava-se ferrenha luta contra os hereges arianos, os quais negavam a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, seu sacrifício redentor. Na Panônia, o número de partidários de Ário era considerável, inclusive entre o clero. Por defender a boa doutrina, Martinho foi açoitado e teve de voltar, fugindo, para Poitiers.


A caminho dessa cidade, tomou conhecimento de que Santo Hilário havia sido exilado na Frísia pelo imperador Constâncio, por ter-se negado a assinar o decreto exigindo a condenação de Santo Atanásio, o mais implacável adversário da heresia ariana.


Primeiro mosteiro em terras francesas


Martinho sofria pela ausência do venerável Hilário e a incerteza de reencontrá-lo. Entrementes, resolveu estabelecer-se numa pequena ilha italiana perto da cidade costeira de Albenga, a qual lhe pareceu propícia para sua primeira experiência de vida eremítica.


Três anos depois, o Santo Bispo voltou a Poitiers, e para lá viajou Martinho também. Sob os auspícios de Hilário, instalou-se em Ligugé, às margens do rio Clain, a fim de levar uma vida eremítica, dedicada apenas à oração e contemplação.


Entretanto, durou pouco o almejado isolamento: atraídos por seu exemplo, numerosos cristãos reuniram-se em torno dele, formando a pequena comunidade que deu origem ao primeiro mosteiro instituído em terras francesas.2 Nessa época a fama de santidade de Martinho já era grande, e Santo Hilário conseguiu, afinal, persuadi-lo a aceitar as ordens maiores.


Fortuitamente, Martinho ausentava-se de Ligugé para visitar o santo Bispo a quem considerava seu verdadeiro pai. Pois era nesse convívio, pervadido de veneração pelo mestre, que o discípulo preparava-se, sem saber, para a realização dos desígnios da Providência.


Em 371, quatro anos após a morte de Santo Hilário, faleceu Lidoro, Bispo de Tours. Martinho foi convidado a assumir essa sé episcopal, mas recusou de imediato. Não via como conciliar a vida eremítica com os encargos de um pastor da Igreja.


Mas se, por um lado, estava ele resolvido a rejeitar o cargo, mais decididos estavam os cristãos de Tours a fazê-lo aceitar. Certo dia, um de seus habitantes foi a Ligugé e pediu-lhe, de joelhos, para ir com ele até a cidade e curar sua esposa enferma.


Sempre disposto a socorrer o próximo, o santo eremita sentiu-se na obrigação de acompanhar aquele homem. Durante o percurso – três dias de caminhada – foi se juntando a eles uma multidão cada vez mais numerosa. Já nas proximidades de Tours, todas as pessoas que o rodeavam manifestavam o mesmo desejo: “Martinho é o mais digno do Episcopado. Feliz a Igreja que tiver um Bispo como ele!”.3 Somente, então, deu-se conta de ter caído numa armadilha…


No exercício do múnus episcopal, mostrou infatigável zelo pelo rebanho confiado pelo Senhor aos seus cuidados. Não esperava o povo vir ao seu encontro: ia aos mais recônditos lugares, e por vezes até extrapolava os limites de sua diocese, no empenho de propagar a verdade de Cristo.


Recebeu nessa época a visita de um advogado recém-convertido ao Cristianismo, Sulpício Severo, o qual, impelido pela sua fama de santidade, quis vê-lo pessoalmente. Não foi decepcionado em suas expectativas. Conta ele a confusão que sentiu quando o santo Bispo, antes de uma refeição lavou-lhe as mãos, e tinha já, na véspera, lhe lavado os pés: “Não pude opor-me nem contradizê-lo. Era tal sua autoridade que a recusa teria sido um sacrilégio”.


Sulpício decidiu ser seu discípulo e escrever sua biografia. Passou a acompanhá-lo por toda parte, analisando com amor e admiração todos os fatos que presenciava, os quais transmitiu à posteridade num livro muito popular na Idade Média, intitulado Vida de São Martinho.


Regra viva para os monges de Marmoutier


Contudo, as obrigações episcopais não o afastaram de seu ideal: sempre desejoso de contemplação e oração, mandou construir, não muito longe da cidade, uma cela onde se recolhia de tempos em tempos. Tal como em Ligugé, juntaram-se a ele numerosos discípulos, e acabou formando-se naquele local outra comunidade cenobítica: o famoso mosteiro de Marmoutier.


Ali, São Martinho dava grande ênfase à caridade fraterna. O convívio entre homens consagrados a Deus por amor a um mesmo ideal precisava ser isento de rixas e rivalidades. A vida comunitária devia formar varões dispostos a todas as intrepidezes a serviço da Igreja. Aquele mosteiro não tinha constituições escritas, mas sim uma regra viva: o exemplo do fundador.


Como nos outros cenóbios surgidos sob a inspiração do santo Bispo, em Marmoutier dava-se prioridade à oração. O trabalho, naquela época, ainda era considerado como uma ocupação inferior, e por isso dedicavam-se a ele apenas os monges mais jovens, os quais dividiam o tempo de oração com o ofício de copista. Ninguém podia possuir, comprar ou vender nada. A túnica, feita de pele de camelo, e a abstinência do vinho nas refeições assinalavam o rompimento definitivo com o mundo.


Marmoutier tornou-se um centro de formação para clérigos e monges. Sua fama espalhou-se tanto que de todas as partes chegavam pedidos ao fundador para que lhes enviasse seus filhos espirituais.


Seu descanso era fazer bem às almas


Na “idade de ouro” dos Padres da Igreja, São Martinho não se destacou como homem de grande cultura nem pela discussão de temas doutrinários candentes. Para isso Deus suscitara outros santos varões. Dele quis a Providência árduos esforços de evangelização.


Narra a historiadora Régine Pernoud: “Com efeito, é visto constantemente pelos caminhos que, atravessando campos e bosques, conduzem a algum povoado. Percorre-os quando vai destruir templos pagãos ou dissuadir os camponeses de adorar as árvores e as fontes. […] Pregava oportuna e importunamente, não só às multidões mas também a grupos reduzidos”.