UM POUCO DA NOSSA HISTÓRIA

Relato extraído do livro

"O Rio de Janeiro: sua história, seus monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades", de Moreira Azevedo, Livraria Brasiliana Editora, 1969.

Por decreto imperial de 1834, foi criada no Rio de Janeiro a freguesia de Nossa Senhora da Glória, e a 30 de outubro do mesmo ano marcados os seus limites. Essa nova freguesia era um desmembramento da de São José, que já àquele tempo era muito populosa, e compreendia toda a vasta área da cidade, não só da que ainda lhe pertence, mas ia até os confins do bairro da Gávea.

A freguesia de São João Batista da Lagoa já havia sido instituída anteriormente; entretanto a população de Laranjeiras, Catete e Botafogo, por muito numerosa, sobrecarregava de serviço a de São José.

 

Eis o decreto, datado de 30 de outubro de 1834, que determinava os limites da freguesia da Glória:

 

“A Regência permanente, em nome do Imperador o Sr. D. Pedro II, em execução do art. 1º do Decreto da Assembléia Legislativa de 9 de agosto passado: Há por bem que a nova freguesia de Nossa Senhora da Glória, desmembrada de São José desta Corte, tenha por limites todo o distrito compreendido entre os atuais, da freguesia da Lagoa de Rodrigo de Freitas e o Beco do Império da Lapa, tirada por este beco do lado da Glória, uma linha desde o canto do Passeio Público pela parte do mar até ao alto do morro de Santa Thereza junto ao Aqueduto da Carioca”.

 

Criada a freguesia, fazia-se, necessária uma igreja para lhe servir de sede paroquial.

 

A Irmandade do SS. Sacramento de Nossa Senhora da Glória, fundada no ano de 1835, em 26 de janeiro, pelo Sargento-mor Antônio Joaquim Pereira de Velasco e outros vultos do maior prestígio na época, ficou sediada em uma capela particular dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, edificada na propriedade do mesmo Velasco, na atual Rua Pereira da Silva, onde também passou a funcionar, a título precário, a Matriz da Glória.

 

Na Rua das Laranjeiras, no atual n.º 9, havia àquele tempo uma pequena capela, reedificada pela rainha Dona Carlota Joaquina, à qual por certo, aos domingos, comparecia a trêfega e ardente soberana para implorar absolvição pelos pecados cometidos durante a semana…

 

Como se sabe, a rainha residia na chamada “Chácara de Botafogo”, situada na esquina da hoje Rua Marquês de Abrantes com a Praia de Botafogo, de sorte que a capela próxima ao Largo do Machado, para sua comodidade, não ficava muito distante de casa.

 

Em 1835, por motivo de execução do Banco do Brasil, contra a então rainha de Portugal, Dona Maria II, a velha capela passou a ser propriedade de Antônio José de Castro.

 

Entrando em negociações com o novo proprietário, o templo foi logo adquirido pela Irmandade da Glória, pela quantia de dois contos de réis, conforme consta de escritura datada de 4 de abril de 1835.

 

Só no fim desse ano de 1835, no entanto, deixaram as imagens e a Irmandade a capela dos Prazeres, para residir na nova sede.

 

Para a cerimônia da trasladação das imagens, foi organizada aparatosa procissão, tendo comparecido à festividade o imperador Dom Pedro II e suas irmãs as princesas Dona Januária e Dona Francisca, o Governo da Regência e todos os dignitários da Corte.

 

Instalada a Irmandade em prédio próprio, foi nomeado pároco interino o Padre Joaquim de Melo Castelo Branco, e na capela exposto o Divino Tabernáculo.

 

Todavia a Matriz não podia continuar indefinidamente no pequeno e acanhado templo. Naquela época as missas no Largo do Machado – atual Praça Duque de Caxias, já tinham caráter aristocrático, e a grande afluência de fiéis exigia, urgentemente, a construção de uma grande e confortável igreja.

 

Assim a Irmandade do SS. Sacramento da Glória foi compelida a cuidar do palpitante assunto.

 

Em 1837, tratou a Mesa Administrativa da Congregação de escolher o sítio em que se levantaria o belo santuário; essa escolha recaiu em um terreno de propriedade de Domingos Carvalho de Sá, situado no Largo do Campo do Machado, entre as ruas das Laranjeiras e a atual Gago Coutinho (antiga Carvalho de Sá). Foi pela Mesa encarregado de dirigir a petição à autoridade competente para a ocupação do terreno, o definidor Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, Visconde de Jequitinhonha.

 

Respondendo ao requerimento a Câmara Municipal aconselhava à Irmandade a entrar em entendimentos com o proprietário do pretendido local. Isso feito, ficou resolvido que a área seria cedida, incluindo nela também uma nesga de terra pertencente a Francisco Marques Lisboa, que previamente consultado, concordou com a pretensão. Impunham eles apenas uma condição, fácil, aliás, de ser atendida: – “que não enterrassem defuntos na Matriz, quer em catacumbas ou campas”. Lavrado o termo de cessão, que teve a data de 17 de julho de 1838, passou o terreno à posse da Irmandade.

Preenchidas todas as formalidades legais, tratou-se logo do levantamento do templo.

 

A cerimônia do lançamento de pedra fundamental da Matriz foi realizada com grande pompa, no dia 17 de julho de 1842, depois de benzida pelo Bispo D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, Conde de Irajá, e conduzida ao local pelo Imperador D. Pedro II, a quem foi conferido o título de Provedor Perpétuo da Irmandade. Ao ato compareceram o Vigário Manoel da Piedade Valongo de Lacerda, Antônio Joaquim Pereira de Velasco, Visconde de Abrantes (depois Marquês), Francisco Teixeira de Aragão, e muitos outros, todos oficiais e mesários, além de grande massa popular.

 

Dentro do cofre de chumbo foi colocada uma medalha de prata pesando oito oitavas, com a efígie do soberano, e muitas moedas de ouro, prata e cobre em circulação no momento, e ainda um pergaminho com os seguintes dizeres:


“Debaixo da proteção divina os piedosos freguezes da Freguezia da Glória se reuniram para levantar esta freguezia em honra da beatíssima Virgem Maria, debaixo do specioso título da Senhora da Glória, precedendo doações públicas e particulares.  A pedra fundamental deste templo sendo conduzida pelo senhor D. Pedro II, Imperador Constitucional e defensor perpétuo do Brasil, e primeiramente Benta conforme o rito pelo Exm. e Rem. Bispo Capelão Mor D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, foi lançada no lugar do seu destino pelas mãos do sobredito senhor para glória de Deus e da Virgem Maria, servindo de provedor da dita freguezia Antonio Joaquim Pereira de Velasco, no dia 17 de Julho de 1842”.

 

Este termo foi também escrito em latim, e ambos hoje se encontram gravados em placas de bronze, colocadas na frente da igreja, ao lado da porta de entrada principal.

 

Aprovada a planta do templo, que fora apresentada pelos engenheiros Koeler e Rivière, logo tiveram início os trabalhos da construção.

 

Não caminharam, entretanto, com a celeridade desejada por motivo dos parcos recursos de que dispunha a Irmandade para empreendimento de tamanho vulto, tanto assim que somente em 1856, ficou concluída a capela-mor, para onde foram trasladadas as imagens, no dia 5 de abril do mesmo ano.

 

Prosseguiram os trabalhos lentamente, apesar da Assembléia Legislativa ter concedido várias loterias em favor das obras, e de haver corrido outras tantas subscrições populares.

 

Enfim a Matriz foi finalmente inaugurada em 1872, tendo havido grandes festas, por esse jubiloso motivo, nos dias 28 e 29 de setembro e 6 de outubro daquele ano, benzido o templo e as imagens pelo Bispo Dom Pedro Maria de Lacerda.

 

Enorme cortejo formou-se no dia 6 de outubro, quando foram abertas ao povo as portas da Igreja da Glória. As imagens que, na véspera, haviam sido enviadas para a Igreja da Lapa, voltavam triunfalmente para a Praça Duque de Caxias. E o povo cheio de fé cristã, assistiu o desfilar dos andores que conduziam as imagens do Senhor da Agonia, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Cabeça e São Miguel, além de outros santos que os fiéis hoje veneram na Matriz da Glória.

Há pouco tempo eu tive a oportunidade de resgatar o trecho do mesmo livro, em edição posterior, de 1974, que trazia informações na íntegra da história, na época, solicitada pelo então pároco, Padre Joaquim José da Costa, em 1873.

A nossa pastoral fez uma "tradução" e correção do texto pouco a pouco para trazer para vocês...  é parecido, mas tem muito mais informações.

IGREJA DA GLORIA 

 

A resolução da assembleia legislativa, sancionada pelo decreto de 9 de agosto de 1834, criou a freguesia de Nossa Senhora da Glória desmembrada da freguesia de São José; autorizou o governo a marcar os limites, e prescreveu que o provimento da igreja só se realizaria depois que estivesse preparada a matriz com a necessária decência. 

O decreto de 30 de outubro do mesmo ano determinou os limites da nova freguesia, confinando por um lado com os da freguesia da Lagoa, no fim das ruas do Senador Vergueiro e Márquez de Abrantes, e por outro lado, com os da freguesia de São José, tendo por divisa uma linha que, partindo do muro do Passeio Publico ao beco do Império, se estendesse até o alto do morro de Santa Tereza, junto ao aqueduto da Carioca.

Era então juiz de paz daquele distrito o cidadão António Joaquim Pereira de Velasco, que possuindo uma capela, consagrada á Nossa Senhora dos Prazeres, em sua chácara da rua das Laranjeiras esquina da do conselheiro Pereira da Silva, ofereceu-a para servir provisoriamente de matriz.

 

Em 26 de janeiro de 1885 reuniram-se vários cidadãos importantes da nova freguesia, na casa do juiz de paz, e resolverão fundar a irmandade do Sacramento da respectiva freguesia ; de feito, convocados em 15 de fevereiro sob a presidência do juiz de paz, procederam a eleição da primeira mesa administrativa, e admitiram provisoriamente o compromisso da irmandade do Sacramento da freguesia de São José. 

Em 19 de março a administração da irmandade aceitou a capela de Velasco para matriz provisória, porém, reconhecendo ser esse edifício de acanhadas dimensões, encarregou ao provedor Domingos José Teixeira e ao escrivão João Silveira do Pilar de comprarem uma capela erguida em 1720, na face meridional do Largo do Machado, e que fora reconstruída em 1818, pela rainha Carlota, que residira na casa próxima, passara a ser do domínio de António José de Castro. 

Comprada essa capela em 4 de abril de 1835,  por 2000$000, para dar-lhe a decência necessária, como determinara o decreto da criação da freguesia, dispendeu a irmandade 3050$000, que com o custo da capela e despesas de transmissão, fez subir o dispêndio a 5187$000 (Agradecemos ao Sr, Fernando António Pinto de Miranda os documentos que forneceu-nos, quer relativos à esta igreja, quer á matriz da freguesia da Candelária.)

Trasladaram-se para ali as imagens ; mas apesar de ser essa capela maior do que a de Pereira Velasco, de achar-se em um ponto mais central e mais populoso da nova freguesia, viu-se que, aumentando de dia para dia a população da paróquia, não tinha esse recinto religioso proporções para servir de matriz ; assim resolveu a irmandade dar principio a construção de um templo vasto, e, em sessão de 23 de abril de 1837, autorizou ao irmão provedor a obter um terreno pertencente a Domingos Carvalho de Sá situado com frente para o Largo do Machado e rua das Laranjeiras, onde podia ser levantada a igreja paroquial. 

Opôs-se Carvalho de Sá á venda do terreno, firme, porém em seu intento, obteve a irmandade a concessão de cinco loterias por decreto de 20 de outubro de 1837 para a edificação da igreja, e por decreto de 28 de abril de 1840 a autorização para a câmara municipal ceder-lhe um terreno de dez braças, que possuía no Largo do Machado. 

Ofereceu então Carvalho de Sá dez braços de terreno contíguas ás precedentes, achando-se compreendidas nelas uma nesga de terra pertencente a Francisco Marques Lisboa, com a condição de, fundada a matriz em treze braças para o largo e vinte para o fundo, dar-lhe a irmandade os dois pequenos terrenos que deviam ladear a igreja. 


Aceitou a irmandade a oferta cora todas as condições ; mas em janeiro de 1842 a mulher de Francisco Marques Lisboa, com consentimento deste, deu procuração ao conselheiro José Antônio Lisboa para anular aquela transação, por ter sido cedido o terreno a Carvalho de Sá sem outorga sua. 

Felizmente serenou esta questão sem prejuízo da irmandade, por que em 20 de fevereiro de 1842 declarou Carvalho de Sá, em mesa conjunta, que cedia à irmandade todo o terreno ao lado daquele em que se levantasse a matriz, e confirmada essa cessão por sua mulher em 26 de fevereiro de 1842, foi retificada em agosto de 1861 por todos os herdeiros. 

Ficou determinado em 26 de junho de 1842 que, em 17 de julho, se lançaria a primeira pedra do novo templo: de feito celebrada nesse dia a festa do Sacramento, comparecerão ao lugar o Imperador, o bispo e a irmandade, e com as cerimônias do estilo, colocou-se a pedra fundamental com a seguinte inscrição : 

Debaixo da Protecção Divina 
Os Piedosos Fregueses da Freguezia da Gloria 
Se Reunirão para Levantar Esta Freguezia 
Em Honra da Beatíssima Virgem Maria 
Debaixo do Especioso Titulo 
Da Senhora Da Gloria 
Precedendo Doações Publicas e Particulares. 
A pedra Fundamental Deste Templo 
Sendo Conduzida pelo Senhor D. Pedro ÍI 
Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brazil 
E Primeiramente Benta Conforme o Rito 
Pelo ExM. E Revm. Bispo Capellão-Mór 
D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo 
Foi lançada No Lugar do Sei; Destino 
Pelas Mãos do sobredito senhor 
Para Gloria de Deus e da Virgem Maria 
Servindo De Provedor Da Dita Freguezia 
António Joaquim Pereira Velasco, 
No Dia 17 De Julho De 1842. 

 


Em comemoração do ato cunhou-se uma medalha de prata.  Para isolar a igreja dos prédios circunvizinhos na parte posterior, autorizou a mesa conjunta de 8 de agosto de 1845 a compra de sete braças de terreno, que foram vendidas em 6 de outubro de 1847 por Domingos Carvalho de Sá e sua mulher. 

Levantadas as paredes da capela-mor, e construídas no corpo da igreja acomodações provisórias para a colocação de dois altares, trasladaram-se para ali as imagens em 6 de abril de 1856. (A antiga capela da rainha Carlota foi demolida, e, posto em leilão o terreno, solicitou-o com fervor religioso o comendador José Baptista Martins de Souza Castellões que, obtendo-o, edificou ali um lindo prédio para sua residência.

Prosseguiram as obras, mas por falta de recursos tiveram de parar em 1864 ; todavia eleita dois anos depois a nova administração, entrarão como tesoureiro José Baptista Martins de Souza Castellões, e como procurador o padre Joaquim José da Costa Guimarães que, envidando todos os esforços, agenciaram donativos, obtiveram esmolas e legados, e deram rápido impulso às obras em 1868.  Em 19 de junho de 1860 colocou-se a cumeeira do templo, benzendo-se nessa ocasião uma cruz, que foi erguida no centro do telhado, ao som de repiques de sino, de toques de musica e girandolas de foguetes; em 28 de setembro de 1872, benzeu o bispo diocesano a igreja e todas as imagens, que estavam em seus respectivos andores, e expôs diversas relíquias de santos mártires, seguindo-se as matinas; no dia 29 sagrou o altar-mor, cerimonia executada pela primeira vez nesta corte; e depois de conduzir em procissão a urna em que estavam aquelas relíquias, encerrou-as em um relicário de prata e depositou-as no altar-mor. 

No dia seguinte houve a procissão da trasladação das imagens ; saíram da matriz os andores do Senhor da Agonia, de Nossa Senhora da Gloria, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora da Cabeça, e o de São Miguel, e dirigindo-se à igreja do convento dos Carmelitas, incorporaram-se aos andores de Santo Henrique, São José, São Luiz (rei da França), São Boaventura, São João Baptista, São Pedro, São Manoel, São Francisco de Salles, São Sebastião, São Joaquim e Santo Antônio, que para ali tinham ido na véspera ; e todas estas imagens em 17 andores, formando extensa e esplendida procissão, vieram para o novo templo. 

Em 6 de outubro abriu o novo edifício suas portas aos fieis com a festa da padroeira, havendo missa pontifical celebrada pelo bispo, sermão pelo padre-mestre, pregador régio, Joaquim José da Costa Guimarães, e achando-se presentes as pessoas imperiais ; de tarde cantou o Te Deum o internúncio monsenhor Dominares Sansruiiíni, orou o padre João Manoel de Carvalho, e queimou-se um fogo artificial oferecido pelos paroquianos. 

Concedeu o bispo um ano de indulgências aos que assistiram a benção do novo santuário, e 40 dias nos aniversários aos que o visitarem, e o internúncio permitiu por uma breve aos irmãos da Santíssima Virgem a faculdade de usarem de uma medalha, tendo de um lado a imagem do orago da paroquia, e do outro a custodia, emblema do Sacramento. 

Acha-se a igreja matriz da Gloria situada na face ocidental da praça, que desde 29 de novembro de 1869 mudou o nome de largo do Machado para o de praça Duque de Caxias. 

Uma escadaria de treze degraus de cem palmos de comprimento dá subida para o vestíbulo do templo formado por oito colunas de granito de 10 palmos de circunferência por 46 de altura, cora capiteis da mesma pedra, da ordem clássica, as quais sustentam o entablamento sobre o qual está o frontão reto; tendo nas extremidades as estátuas de São Pedro e São Paulo e no ápice a cruz. Orna o tímpano um painel em alto relevo, obra do artista espanhol Francisco Mutido, representando a coroação da Virgem, segundo um quadro que se acha na academia das belas artes de Lisboa. 

Veem-se no fundo do vestíbulo o pórtico e duas portas laterais no primeiro pavimento, e no segundo sete janelas quadrangulares com vidraças entre pilastras de pedra correspondentes ás colunas do vestíbulo. 

Pouco distante do frontão levanta-se a torre com 260 palmos de altura e 50 de largura em cada face terminando em um terrado na altura de 100 palmos, o qual alia-se guarnecido de uma balaustrada de mármore, sustentando nos ângulos quatro estatuas: a da religião, fé, esperança e caridade; apresenta doze sineiras para as quais sobe-se por uma escada de 100 degraus de pedra lavrada, sendo parte em forma de leque e parte de caracol. No centro do terrado eleva-se o pináculo em forma de agulha, tendo na base quatro sineiras. Concluiu-se a torre em 1875, e em 11 de julho desse auno colocou-se 
ali um sino; mas a a ideia de colocar outros sinos afinados para tocarem por musica. 

Nas faces laterais da igreja contam-se treze janelas quadrangulares no segundo pavimento, e sete janelas rasgadas e duas portas cora, escadaria de pedra no primeiro pavimento, erguendo-se entre as portas e janelas pilastras de pedra com capiteis da ordem clássica. Na face do fundo não a janelas nem portas. Tem o edilício 113 palmos de largura por 1240 de comprimento, e circunda-o um jardim fechado com gradil de ferro. 

Quando tratou-se de erguer a igreja opinarão alguns que se empregasse o mármore, outros o granito do pais, e esta ultima opinião, sustentada por José Clemente Pereira, foi a que prevaleceu. 

Encarregado de apresentar o plano da nova igreja o marechal do exercito Francisco José de Souza Soares de Andréa, depois barão de Caçapava, incumbiu dessa tarefa aos engenheiros Kohlere Kivière, e em sessão de mesa de 20 de novembro de 1842, exibiu as plantas alta e baixa do edifício, feitas por aqueles engenheiros, as quais foram aprovadas com ligeiras modificações relativas às entradas para o coro e batistério ; mas posteriormente fizeram-se novas alterações, resultando talvez disso a irregularidade que se nota na construção deste monumento.

No interior é outra a arquitetura que predomina, é o estilo barroco. O teto da igreja e dos corpos laterais é de abobada, um pouco abatida, de tijolo tubular, sendo notável a do corpo da igreja pela largura e comprimento. Há sete altares, constituindo o do Sacramento uma capela funda, e os ornatos e as imagens do Senhor da Agonia, de São Boaventura e Santo António, que ali estão, pertencerão ao convento de Macacu; doados pelo provincial dos franciscanos frei António do Coração de Maria, foram trazidos para a corte pelos esforços do padre procurador Joaquim José da Costa Guimarães e do tesoureiro José Baptista Martins de Souza Castellões, que escaparão de ficar esmagados sob as ruinas daquele antigo convento, quando tratarão de desarmar o altar. 

As imagens dos outros altares foram feitas no Porto e em Braga, em Portugal, por vários artistas. Pende do teto da igreja um lustre de bronze dourado e cristais, com 120 luzes, construído em Paris. Há seis tribunas no corpo da igreja, e dois púlpitos arrendados, tendo superiormente uma estatua, na parte inferior um anjo, e foram trabalhados pelo artista Francisco Mutido.

 

Na parede do arco cruzeiro veem-se dois painéis, e superiormente dois nichos com as estatuas de mármore de São Lucas e São João Evangelista, e sobre o arco um painel em alto relevo, representando a Assumpção da Virgem, obra do artista nacional Chaves Pinheiro.

O arco que constitui a abertura do coro é acanhado e sem elegância.

 

Há no corpo da igreja uma grade circunrodando os altares, e bancos de palhinha para os fieis.

Quatro colunas constituindo um baldaquino encerram o altar mór, cuja obra de talha e a dos altares laterais foram feitas pelo artista nacional António Jacy Monteiro; no ápice do baldaquino eleva-se a estátua de Moisés, e sobre cada coluna da frente vê-se um anjo.


É de mármore a urna do altar, e no lugar em que estão encerradas as relíquias dos santos mártires, há uma chapa de prata com a seguinte inscrição : 

R. P. P.M. de Lacerda 

consecravit 

A. D. 

MDCCCLXXII. 


Na capela mór há duas tribunas e duas portas, das quais uma vai ter à casa forte, e a outra à sacristia. 

Dois corredores ladrilhados de mosaico de mármore ladeiam a igreja; o do lado esquerdo vai ter á capela do Sacramento, e à casa forte, onde guardam-se um rico manto de veludo azul da Senhora das Dores, um paramento bordado a ouro feito em Paris, uma ambula de ouro e platina ofertada pelo irmão Diogo Andrew, um par de brincos de brilhantes no valor de cinco contos, dado pela irmã vice provedora D. Anastácia Ubelhart Rodrigues, c outros objetos de valor. 

No corredor do lado direito vê-se, na antessala que o precede, o batistério com um painel do baptismo de Cristo, ofertado pelo Dr. Joaquim José Teixeira; termina esse corredor na sacristia, e pendentes de uma das paredes laterais apresenta os retratos dos benfeitores José Luiz Dias Diniz, Dona Francisca Fagundes de Oliveira, José Baptista Martins de Souza Castellões e do vigário encomendado Joaquim José da Costa Guimarães. 
 

José Luiz Dias Diniz, falecido em 10 de dezembro de 1867, além de muitos donativos pecuniários, deu a pia baptismal, o frontal do altar mór e outras alfaias. 

Dona Francisca Fagundes de Oliveira ofertou em 1858 uma lâmpada de prata e dois alfinetes de topázios, em 1860 um rico pálio, varas, cruz, castiçais e um conto de réis para um sino ; e, falecendo em 25 de agosto de 1870, legou oito contos de réis para serem aplicados em obras, ornatos e alfaias da igreja; à irmandade do Sacramento quatorze apólices de conto de réis para a celebração de 125 missas anualmente por diversas intenções, e para distribuir-se todos anos, na festa do Sacramento, 15 esmolas de 20$000 cada uma por 15 viúvas pobres; mais dez apólices de conto de réis para o dote de 10 meninas pobres, órfãs e honestas, sendo o dote entregue quando se casarem ; à repartição da caridade da freguesia da Gloria dez apólices de igual valor para se distribuírem 24 esmolas anualmente de 20$000 a cada uma, sendo 12 na quinta feira santa a 12 viúvas pobres, que tenham filhos menores, e 12 no dia da festividade da Senhora da Gloria por 12 virgens órfãs e pobres; à igreja da Gloria mais 10 apólices para serem exclusivamente empregadas em obras, ornatos ou alfaias da mesma igreja, e á irmandade do Sacramento desta freguesia mais 5 apólices para todos os anos celebrar dois ofícios solenes um por todos os irmãos falecidos, e o outro por todos os fieis defuntos. 


Deixou ainda apólices a diversos legatários com a condição de reverterem á repartição da caridade se falecerem antes de completar 20 anos, e sem filhos legítimos; também concedeu á mesma repartição o rendimento de todas suas apólices do 1° semestre, que se vencesse depois de sua morte. Tem a irmandade cumprido fielmente as imposições desses legados, e criou uma capelania expressa para as missas instituídas por tão caridosa benfeitora. 

Inauguraram-se os retratos de Dona Francisca Fagundes de Oliveira e de José Luiz Dias Diniz em 30 de junho de 1867, e os do padre-mestre Joaquim José da Costa Guimarães e do comendador José Baptista Martins de Souza Castellões em 6 de outubro de 1872. 

A sacristia é espaçosa, tem um altar com diversas imagens, um esguicho de mármore feito pela administração da irmandade do Sacramento de 1872, e o pavimento com mosaico de mármore. 

Sobre a sacristia, no segundo pavimento, está o consistório, onde guarda-se um livro chamado de ouro, no qual acham-se inscritos os nomes dos benfeitores, que concorreram com donativos para as obras do templo, havendo-se dispendido com essas obras, desde 1838 até 31 de dezembro de 1872, 555:183^217. 

Entre os nomes daqueles que mais se esforçarão pela construção deste elegante edifício devem-se mencionar o padre Joaquim José da Costa Guimarães e o comendador .José Baptista Martins de Souza Castellões. Nomeado procurador da irmandade encarregou-se o padre Guimarães com toda dedicação e atividade da construção da igreja, da qual era pároco; zeloso e inteligente venceu obstáculos insuperáveis, economizou avultadas quantias dirigindo ele próprio a edificação do templo; o que os outros só podiam fazer com muito dispêndio, e em muito tempo, ele com perseverança e vontade rezava com muita economia de dinheiro e em breve espaço; ao mesmo tempo que dava o plano para erguer uma pilastra, ou para enfeitar-se um capitel, estendia a mão aos fieis suplicando esmolas, donativos para levantar a casa de Deus. Ele e José Baptista Martins de Souza Castellões só descansarão quando virão erguido o novo santuário. Nomeado tesoureiro em 1866 José Baptista Martins de Souza Castellões tornou inexaurível o cofre da irmandade, cogitava de dia para dia em novos meios para obter dinheiro, pedia muito, e colhia muito porque pedia para uma obra de Deus, e por sua solicitude e piedade não só consegui levantar o templo, senão cumprir duas apólices, as primeiras que a irmandade da padroeira possuiu, com as sobras dos rendimentos. 

Em remuneração dos serviços prestados por esses dois beneméritos irmãos mandou a irmandade tirar-lhes os retratos, inaugurando-os no dia da primeira festividade celebrada na matriz. 

Mas se admiramos a inteligência do digno sacerdote Joaquim José da Costa Guimarães, que apesar de não ter estudos especiais, incumbiu-se de dirigir as obras, julgamos seria melhor que, limitando-se á sua missão evangélica, encarregasse os profissionais da construção do novo templo, que talvez não apresentasse os defeitos que encerra; assim sendo muito abatida a abobada do corpo da igreja em relação a da capella-mór parece o templo acaçapado; se o exterior é rigorosamente clássico, o interior difere desde o mosaico dos pavimentos até os ornatos dos altares; o primeiro corpo da torre é assaz largo, e o pináculo em forma de agulha é estranho a arquitetura estampada na frontaria da igreja; há, portanto, irregularidades e inconveniências da arte que, se passam desapercebidas a olhos profanos, são visíveis aos filhos das artes. 

Fugida a principio pelo compromisso da irmandade do Sacramento de São José, nomeou a irmandade do Sacramento desta freguesia, em 2 de agosto de 1835, os irmãos José Clemente Pereira e João Silveira do Filar para formularem um compromisso, que foi aprovado pelos poderes civil e eclesiástico ; em 1872 foi reformado, e leve aprovação dos poderes competentes. Em abril de 1837 o Imperador D. Pedro II aceitou o titulo de protetor perpétuo da irmandade. 

Possui a irmandade da Senhora da Gloria um prédio legado pelo aforado Plácido José Sanches, diversas apólices, e administra a repartição da caridade criada por proposta do irmão provedor João Manoel Pereira da Silva que, em seu nome e dos senhores José Machado Coelho, padre Francisco Martins do Monte, António Ferreira Neves, Diogo Andrew, marquesas de Monte-Alegre e de Abrantes, D. Maria Eliza Pereira da Silva e D. Maria Antónia de Bulhões Ribeiro ofereceu à irmandade a quantia de 7:616$000, sobra das esmolas tiradas em favor dos pobres da freguesia, por ocasião da epidemia do cólera-raorbus, e propôs se comprassem apólices, cuja administração ficasse anexa á mesa da irmandade, para distribuir anualmente os juros em esmolas pelos pobres da freguesia. Aceito o encargo, e compradas as apólices, instituiu a irmandade a repartição da caridade, que auxiliada pelo legado da benfeitora D. Francisca Fagundes de Oliveira, conta já dezoito apólices, e distribui todos os anos esmolas de 3$000 a 25 pobres. 

O primeiro sacerdote que paroquiou esta freguesia foi o cónego Joaquim de Mello Castello Branco, que pouco tempo exerceu essas funções, sendo substituído pelo vigário colado padre Manoel da Piedade Vallongo, que ocupou o beneficio durante dezesseis anos; falecendo, foi escolhido por concurso o padre Marcos Cardoso de Paiva, que como vigário colado dirigiu a freguesia por vinte anos, até que em 1873 resignou-a, e recolheu-se à vida privada. Substituiu-o como vigário encomendado o padre Joaquim José da Costa Guimarães, que ainda se acha em exercício, tendo antes ocupado cerca de doze anos, com muito zelo religioso e dedicação, o lugar de coadjutor.